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  • [Review] Murasakiiro no Qualia - Filosofia + Física = Arte!

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    Quando falamos sobre obras sci-fi, há uma certa concepção específica que vem à nossa mente, que na verdade nada mais é que a concepção básica do gênero e os seus principais clichês e modelos. Quando falamos de Murasakiiro no Qualia, no entanto, o que recebemos é algo completamente fora da casinha. A light novel sci-fi e yuri de 2009 tem uma proposta bem específica em mente que não tem muito a ver com o que estamos acostumados a ver desse gênero. A parte sci-fi da obra, a ciência em si, em nenhum momento é o ponto principal da trama, mas sim um veículo usado para passar uma mensagem. O que pode significar um certo afastamento de quem é muito fã do gênero, mas também poderia significar um afastamento de quem não gosta das partes mais complicadas de sci-fis complexos. Uma ideia arriscada que talvez fosse um tiro no pé, mas bem... Digamos que valeu a pena o risco.



    Antes de mais nada, Murasakiiro no Qualia é uma light novel, mas também tem uma adaptação em mangá. Por ser uma novel one-shot, ou seja, de volume único, sua adaptação em mangá pôde adaptar toda a obra sem problemas. Em 99% dos casos, eu trataria o original e a adaptação como coisas totalmente distintas, quase como se fossem obras diferentes. Isso independente se a adaptação é boa ou não, porque no fim das contas é uma perspectiva diferente de uma mesma obra sendo produzida em outra mídia. Porém, Murasakiiro no Qualia é um caso à parte, isso porque a dupla Hisamitsu Ueo, o(a) escritor(a) da novel e Shirou Tsunashima, o(a) ilustrador(a) da novel, foram quem fizeram também a adaptação em mangá de Murasakiiro no Qualia. Então temos um raro caso dos próprios criadores do original sendo também os criadores da adaptação, o que faz a adaptação ser uma leitura do original praticamente perfeita. E, vejam, não estou dizendo isso apenas pelos criadores terem total controle da adaptação, mas também pelo mangá aproveitar sua natureza visual para fazer algo além do que um livro conseguiria fazer só com palavras. Então ambas as versões são excelentes, com suas diferenças, mas com o mesmo espírito, inclusive pela arte da novel e do mangá vir da mesma pessoa. O que eu farei aqui é analisar a obra como um todo, novel e mangá inclusos. Vou citar o que tiver que citar de importante de diferença entre os dois, mas você pode ler o que você a mídia que se sentir mais confortável.



    Dito isso, vamos à obra. Murasakiiro no Qualia é dividido em três atos, naquele estilo tradicional de roteiro. Dentro desses três atos, há dois arcos. O primeiro deles sendo o ato 1, o segundo sendo os atos 2 e 3. O ato 1, que é a introdução, é muito interessante e, ao mesmo tempo, nem tanto. A obra tem uma premissa exótica, onde conhecemos a protagonista, Manabu Hatou, ou Gaku, como foi apelidada e o seu cotidiano após conhecer a excêntrica Yukari Marii em um esbarrão no corredor da escola onde as duas acabaram se beijando acidentalmente (Já começa naquele pique!). A Yukari é uma menina super peculiar, pois afirma enxergar os outros como robôs. Não no sentido figurado, mas literalmente mesmo. Robôs, tipo mechas ou até personagens de Mega Man. Obviamente ninguém leva ela a sério, pois não só é algo surreal demais, mas também é algo impossível de se provar. O termo "Qualia" no título da obra não está ali à toa. Esse conceito da filosofia fala sobre a natureza subjetiva das nossas experiências pessoais dentro das nossas próprias perspectivas e como isso é algo simplesmente impossível de se transcrever ou compartilhar. Eu lembro de um exemplo de diálogo que vi num site que era tipo: "Descreva a cor da maçã" - "É vermelha" - "Vermelha como?" - "Vermelha, vermelha mesmo". Não dá para mostrar para outra pessoa como seus olhos veem as coisas, ou como sua mente te mostra o mundo, aquilo é absolutamente só seu. Dessa forma, a obra te impede de ter certeza de qualquer coisa nunca mostrando o mundo pela perspectiva da Yukari, mas alimentando a ideia de que talvez ver as pessoas como robôs não seja realmente só bobeira da Yukari.



    Então existe um aspecto filosófico e reflexivo nessa introdução que torna aquilo muito interessante. Por outro lado, enquanto acompanhamos o cotidiano da Gaku, sobre seus hobbies, vida escolar e práticas, tal como ela estar sempre treinando o uso da naginata, temos uma obra de slice of life até que relativamente comum. Talvez você seja como eu e curta slice of life, consequentemente conseguindo se divertir ao longo desse primeiro arco. Mas talvez não seja lá sua praia e isso tire um pouco do seu interesse na obra. Porém, na reta final da introdução, as coisas mudam da água para o vinho muito rapidamente. Se você optar por ler o mangá, a obra vai soltar um spoiler logo na primeira página, para depois ir para o slice of life, talvez até por realmente acreditarem que dar aquele spoiler acabe servindo de combustível para manter os leitores interessados até chegar na "parte boa". Uma escolha que eu pessoalmente não curti tanto, porque se você for ler a novel, a reviravolta realmente vem do nada e consegue te impactar muito mais. Achei mais marcante dessa forma, embora entenda a escolha do(a) autor(a) nesse caso. O final da introdução é bem intenso e, de certa forma, confuso. Há uma cena em específico que talvez seja a única da obra inteira que não dê para explicar, apenas teorizar e tirar suas próprias conclusões. 



    Quando terminamos a introdução, a obra muda completamente. A condução da narrativa é convincente o suficiente para te deixar inseguro em relação a direção que a obra tomaria após os eventos finais do primeiro arco, de forma que mesmo que voltemos a vida escolar de antes, a adição de uma nova personagem ao cast só te deixa ainda mais desconfiado. De uma forma muito inteligente, o(a) autor(a) mexe com a nossa qualia, nossa perspectiva em relação a novel ou ao mangá, fazendo com que aquela ideia de antes se expanda para além da obra em si. O negócio é que chegamos no segundo arco, e esse é a cerne de Murasakiiro no Qualia. Foi aqui que a novel me ganhou. A obra começa a brincar ainda mais com uma mistura de conceitos científicos e conceitos filosóficos para temperar a narrativa de uma forma muito eficaz, mas também muitas vezes até metafórica. A maioria dos conceitos apresentados são explicados de forma até que bem didática, ao ponto de qualquer um poder entender a ideia geral, mas ter alguma familiaridade prévia com certeza ajudaria bastante. O uso da física quântica pode parecer um pouco assustador, a princípio, mas a complexidade da obra não é tal que não dê para entender se não souber sobre os conceitos abordados. A filosofia e a ciência existem na obra como um meio de passar uma mensagem. Cheguei a conhecer uns conceitos novos que nunca tinha ouvido falar, como Zumbi Filosófico ou o Princípio de Fermat.



    O ponto é que a grande temática por trás da obra é algo muito mais mundano do que aparece, mas apresentada como um espetáculo tão exagerado que nos sentimos acompanhando uma grande epopeia lendária que te surpreende muito em cada esquina. Usando o mangá de exemplo, não é que o capítulo seguinte pode te surpreender, mas sim que dentro de um único capítulo, você pode ter 2-3 motivos para ficar boquiaberto. O fato da adaptação em mangá ser um tanto mais frenética no ritmo ajuda bastante, já que a novel é mais cadenciada e te dá bons intervalos entre um momento marcante e outro, o que é um ponto em favor do livro, na minha opinião. Em todo caso, a narrativa consegue alimentar a trama de uma forma que faz a obra ser instigante de um determinado ponto do segundo arco até o fim da história. Mesmo com uma quantidade bem alta de diálogos e narrações, tem pouca coisa em toda obra que está "sobrando", tudo parece ser importante para o que estamos presenciando. Principalmente porque muitos dos temas estão ali, filosofias sendo abordadas, o existencialismo, a própria psicologia de uma forma geral. A física em certo ponto acaba se misturando com tudo isso, porque o propósito final tanto da física quanto da filosofia é agregar na criação da arte. 



    E aí temos a protagonista, Gaku, que é o grande fator surpresa da novel/mangá. É uma personagem que passa por uma grande metamorfose ao longo de Qualia, e que também enriquece demais a trama e os temas abordados. A Yukari, assim como a maioria dos outros personagens da obra, tem suas peculiaridades e isso é deixado até que claro durante a introdução da obra. Já a Gaku é bem normal, o que é útil para uma personagem no papel de protagonista, mas ela também é bem humana e isso é importante para a obra como um todo, principalmente quando se trata do seu relacionamento com a Yukari. É ela ser humana que permite a obra se desenrolar do jeito que se desenrolou, e esse desenrolar por sua vez permitiu a personagem a ter um desenvolvimento fantástico. Colocando em uma balança, a obra encontrou um equilíbrio ideal entre a protagonista e a trama que fez com que Murasakiiro no Qualia seja narrativamente quase impecável. Claro que sua curta duração impede que outras personagens tenham tanto desenvolvimento, mas para o que a obra se propôs a fazer, não consigo pensar em muita coisa que poderiam mudar.



    O mangá entrega spoilers no primeiro capítulo, tem um ritmo mais acelerado que pode atrapalhar na hora de digerir o conteúdo da obra e corta ou resume alguns pontos não tão importantes da novel, mas fora isso, é uma adaptação excelente. Mais do que isso, o mangá é visualmente muito, muito rico, coisa que a novel é impossibilitada de ser por natureza. Não digo isso me referindo ao nível da arte, mas sim como ela é apresentada, tem muitos quadros ou ideias no mangá que são geniais no que tange a narrativa visual. Tem momentos que me arrisco a dizer que são até melhores do que no original, por saber aproveitar o aspecto visual. Acho importante frisar isso porque a adaptação em mangá tem seus defeitos, mas é o que eu considero uma adaptação ideal de outra obra. Murasakiiro no Qualia tem um final ambíguo, embora satisfatório, mas o mangá dá um passo além e adiciona algumas páginas a mais de conteúdo que não existe na novel e que torna o final um pouco mais compreensível, sem realmente abandonar a ambiguidade do original. É uma adição que achei muito boa, e acho que poderia ter tido outras adições de conteúdo original, mas visto que a obra não era popular, é normal ter acabado só com três volumes.



    Murasakiiro no Qualia é uma das obras mais surpreendentes que já consumi. Única e cheio de personalidade, foi uma experiência inesquecível que eu quis recomendar aqui. Ambos a novel e o mangá foram licenciados há algum tempo pela Seven Seas e serão oficialmente lançados em inglês no ocidente, a novel ainda esse ano e o mangá só no ano que vem (Em formato omnibus, volume único). Sendo uma viagem super memorável, essa foi uma experiência que me marcou enquanto novel, depois como mangá e, até agora, enquanto termino esse texto e revisito páginas e trechos da obra, ela me marca novamente. Mas, no fim das contas, toda essa minha experiência com a obra é a minha qualia, algo que vocês jamais entenderão por completo, mas espero que esse post ao menos te intrigue o suficiente para você querer ter sua própria experiência. Saraba Da! 

  • Isekai e a natureza do que é definição

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    Isekai é o 'boom' do momento, quando as pessoas já estavam achando "saturado" sair 3-4 animes isekai a cada 200 animes, o número subitamente subiu para 3-4 a cada 50. Basicamente cerca de 2% dos animes que saem anualmente eram isekais há 3~4 anos atrás, hoje esse número subiu para cerca de 7 ou 8%. Se já havia muitas pessoas que deliberadamente se incomodavam com meia dúzia de isekais por ano, imagina quase esse número chega a uma dúzia ou mais?
    Claro, esse não é um processo novo. Aconteceu o mesmo com slice of life moe muitos anos atrás, todo anime novo do tipo era duramente atacado simplesmente por existir, mas eventualmente as pessoas se aquietaram e ninguém mais fala nada mesmo quando sai cinco deles na mesma temporada.

    Porém, existe um grande problema, principalmente nos dias de hoje, em casos como esse, que é o motivo desse post para início de conversa. Nos últimos tempos há algo que eu venho observando com alguma frequência, e que me chamou ainda mais atenção nas duas últimas semanas ao ver um youtuber (Estrangeiro) de anime com mais de um milhão de inscritos e um artigo da ANN cometerem o mesmo erro. Isso é: Rotular como isekai algo que não é isekai.
    O artigo da ANN, intitulado "Os 6 grupos de Isekai mais atraentes do Verão/2019", já começa com o pé esquerdo uma vez que para ter "os 6 mais atraentes", precisaria ter um número maior que 6 para listá-los, o que não é o caso, o que trás à tona a velha necessidade de ser caça-cliques, por isso o título. No entanto, a pseudo-polêmica aconteceu mesmo quando a redatora erroneamente listou DanMachi nessa lista, o que fez muita gente reclamar disso. A redatora em questão já admitiu o erro e se desculpou (OBS: Na abertura do post a própria redatora "explica" a premissa de Isekai, premissa essa que DanMachi não se enquadra, então foi um erro bem esquisito), mas esse caso é só mais um de algo que vem ocorrendo recentemente, mas logo logo chego lá.
    Esse erro rendeu uma grande discussão nos posts desse artigo, o que pode explicar não haver alterações no artigo em si já que ter mais movimentação é bom para eles, de pessoas criticando o erro da redatora e pessoas criticando quem estava criticando o erro da redatora, tudo em cima da discussão do que é ou não é isekai, e o que é ou não aceitável chamar de isekai.

    Muitos se referem a isekai como um gênero, o que para mim não é uma boa ideia, por isso quase sempre me refiro a isekai como apenas um sub-gênero, mas talvez mesmo eu não esteja muito certo em usar esse termo. O fato mesmo é que isekai é um conceito, cuja definição em obras de ficção é "protagonista é transportado para outro mundo" e só. No meu Sou Nan Da! #03 eu falo mais a fundo sobre Isekai, caso queira uma abordagem mais extensa.
    A questão é que, por definição, para ser um Isekai antes de mais nada a obra precisa que o(a) protagonista seja transportado(a) para outro mundo. É isso, não tem muito segredo e é bem fácil de entender, certo? Bem, pelo visto não.

    "Definição é uma explicação clara e concisa de alguma coisa, é o significado.
    Definição é um substantivo feminino. Do latim “definitione” que significa uma exposição com precisão."
    "Explicação do sentido de uma palavra, vocábulo, expressão, pensamento, conceito"
    Às vezes o que me parece é que falta para as pessoas pararem e procurarem saber o que é ter uma definição, como mostrado acima. Mas na realidade o buraco é mais em baixo.
    Como eu disse antes, o post da ANN rendeu muita discussão sobre o que é ou não é Isekai, que é algo que não deveria acontecer, ou ao menos muito raramente em casos muito ambíguos. Isso porque você raramente vê as pessoas discutirem se uma obra é ou não é de gênero X ou Y, salvo uma ou duas exceções. O que me leva a refletir sobre o porquê disso acontecer nesse caso? Mas não precisa pensar muito para chegar lá... Mal-intencionado ou não, no fim isso é claramente causado por um desgosto ao conceito em si, o que é um problema que vai muito além de subgêneros de ficção. As pessoas estão criando o hábito de manipular definições para incluir/excluir o que lhes agrada/desagrada, é uma ação totalmente tendenciosa que só serve para espalhar desinformação.
    Existem pessoas que por gostar de certas obras, ao ver essas obras serem enquadradas como algo que detestam (Leia-se Isekai), se recusam a querer "misturar essa boa obra a essas coisas ruins", e também existem pessoas que acham "é parecido, logo, é a mesma coisa" quando, além de estar errado, muitas vezes nem parecido é.
    E sabe a quem isso ajuda? Exato, ninguém. Quem odeia Isekai vai deixar de ver obras que não fazem parte do subgênero porque pessoas ficam estupidamente rotulando obras aleatoriamente, e pessoas que gostam de Isekai vão assistir certos animes esperando ver o que gostam e vão ter as expectativas quebradas. Gêneros e subgêneros existem para guiar as pessoas para o que gostam ou permiti-las evitar o que não gostam, não para ficar manipulando e inventando suas próprias definições.

    Vale ressaltar: Isso só acontece com tipos de obras que muitos não gostam, não é algo normal, e é, muitas vezes, até desonesto. Existem casos discutíveis, as obras que se passam em realidades virtuais, por exemplo, são ou não são Isekais? Segundo o autor de Sword Art Online, sua obra não é um Isekai porque em nenhum momento os personagens saem do mundo em que estão. Ainda assim, existe a ideia do protagonista ser transportado para um outro mundo sendo instigada em obras do tipo. Esse tipo de caso é possível se ter uma discussão, e até aí é saudável. O que não pode é pegar uma obra onde é simplesmente uma obra de fantasia normal e rotulá-la como Isekai porque sim. Muitos cometem o maior erro que é querer dizer que algo faz ou não parte do subgênero baseado em clichês e afins, coisas que definitivamente não são parte do que definem o conceito. Clichês não definem nada, são apenas artifícios utilizados na narrativa de algumas obras, algo opcional para o autor. Por fim, não é porque muita gente compara Code Geass com Death Note que Death Note agora é um anime de mecha. Sei que é pedir demais para uma geração com tanto extremista na internet, mas meia dúzia de similaridades não torna uma obra igual a outra.

    O pedido que fica é que vocês se atenham as definições reais de cada gênero ou subgênero. Tem gente que até hoje acha que Isekai são obras de fantasia. Muita gente simplesmente não tem conhecimento sobre essas coisas, e podem ser vulneráveis a pessoas espalhando sua visão distorcida e tendenciosa sobre as coisas para desinformar os outros. Essas pessoas já conseguiram fazer isso com outro gênero, e com incontáveis obras, então não é algo impossível de acontecer. Tentar comprar briga contra desinformação pode ser um esforço inútil, mas não dá para dizer que não tentei. Saraba Da!
  • [Review] Oyasumi Punpun - A realidade trágica e os caminhos da vida

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    Recentemente eu terminei de ler um dos mangás mais aclamados pelo público ocidental, cuja popularidade foi obtida apenas pelo quão elogiada a obra é, feito que não muitas obras conseguem. Como já viram no título, hoje falarei sobre Oyasumi Punpun e algumas das mensagens que o mangá me passou.

    Aviso: A review conterá alguns spoilers do começo do mangá, o que for spoiler eu deixarei riscado, logo, caso queira ler às cegas (E eu recomendo fazê-lo), pule os textos riscados!

    Slice of Life, Drama, Psicológico e Coming-of-Age, o mangá conta a história de Punpun Onodera em um período de tempo de 10 anos (Da infância ao início da fase adulta, basicamente). Logo de cara você perceberá um dos aspectos mais peculiares (E também mais criativos, na minha opinião) do mangá: O protagonista é uma espécie de pássaro, ou coisa do tipo, tal como sua família. Uma escolha interessante que, dado o conteúdo do mangá, não poderia ser mais eficaz. Talvez por eu ser uma pessoa de imaginação fértil e bastante criatividade, para mim o Punpun foi, de longe, o personagem mais expressivo do mangá. Sua aparência facilitou não só eu entender melhor que tipo de expressões ele fazia em cada situação, mas também a entender melhor como ele realmente estava se sentindo ao longo da história.

    Punpun e a normalidade
    "Sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou."
    "O que é normal, afinal?" --- Disse um personagem no início do mangá. O que é normal para você? O mangá direta e indiretamente toca no tema enquanto aos poucos descobrimos que Punpun, e sua vida em si, não são convencionais. Em um certo momento, os pais de Punpun começam a discutir e brigar, enquanto o Punpun olha para o céu e deixa, segundo a própria narração, "mais um dia normal" se passar. Punpun tem todas as características de uma criança normal, a princípio, mas ao mesmo tempo, também possui certas características diferentes, para dizer o mínimo. Gosta do pai, não gosta muito da mãe, presencia a mãe ter que ser hospitalizada por causa do pai, vivencia os pais se divorciando. Vendo a história do ponto de vista de uma criança que ainda não entende muito bem como as coisas funcionam limitam nosso entendimento, mas com o avançar da história vemos que as coisas não são bem como pareciam.

    Mesmo sua vida escolar, que a princípio era bem normal, com amigos e amores, acaba tomando um rumo para pior após certos eventos. A chegada da Aiko, ainda no primeiro capítulo, já revela que muito de Oyasumi Punpun gira em torno do amor, e isso não necessariamente será algo bom sempre. Para cada normalidade da vida de Punpun, outras duas anormalidades surgem no caminho. E não muito longe do início do mangá, começamos a notar que o Punpun claramente sofre de depressão, algo que mais para frente fará muito mais sentido, mas que explica muita coisa do personagem, quiça até o porque da sua aparência ser tão distinta dos outros. O mangá trabalha bem a ideia de que a infância é a fase do descobrimento, onde seu lado interior será definido, logo, viver uma vida normal provavelmente resultará em um amadurecimento normal, e viver uma vida anormal provavelmente resultará em um amadurecimento anormal. Por isso, chegando na adolescência e eventualmente na vida adulta do Punpun, que não entrarei em muitos detalhes para não dar spoilers, podemos ver o quanto as coisas da sua infância o levaram para o caminho que ele seguiu, demônios criados em você e que crescem com você, na maioria das vezes sem nem ser sua culpa. Família --- Essa é a palavra chave, uma família presente que possa cuidar da criança direito pode evitar a maior parte dos problemas da mesma, a falta de uma (Não necessariamente no sentido literal), por outro lado, certamente causaria danos graves.
    Ao longo do mangá, você notará que o Asano não se intimida em explorar partes mais profundas do psicológico humano, sendo algo distorcido ou não, mas quase sempre feito de uma maneira bela e única a um estilo bastante autoral, que dificilmente você verá parecido por aí.

    A maioria das obras de slice of life optam pelo lado normal da vida, o que é perfeitamente aceitável, embora entediante para muitos (Não é o meu caso, obviamente). Oyasumi Punpun opta pelo anormal, o que também é perfeitamente aceitável, embora mais difícil para as pessoas de lidarem. As pessoas, em sua maioria normais, sentem maior dificuldade em aceitar o anormal no seu entretenimento, enquanto o normal é mais do seu agrado por ser mais familiar. Ou será que é isso mesmo? Esse pequeno parágrafo foi normal para você? O que é normal, afinal?


    Punpun e a realidade
    "Eu não tinha nada a dizer, e me perdi no nada dentro de mim."
    Em Punpun, somos confrontados por uma realidade árdua e difícil de engolir, ou ao menos essa é a intenção do autor, Inio Asano, ao nos mostrar eventos próximos de uma realidade que muitos podem ter passado. Porém, entra-se aí uma das principais questões, talvez a principal questão, que pode fazer com que você não se conecte ao mangá, que ache-o exagerado, ou mesmo que sofra um impacto emocional tão forte que te force a ter que parar de ler temporariamente pelo seu próprio bem estar. É a velha questão do realismo. Uma das coisas mais incríveis do mangá, tenha sido isso proposital ou não, é que a sua percepção da realidade te permite ver a obra de diferentes ângulos. Como ainda vou falar mais a fundo em um post sobre o assunto que ainda não terminei, não existe só uma realidade certa, cada pessoa tem sua própria realidade. Então é um pouco chato quando vejo, e eu vi aqui e ali após ler algumas opiniões sobre o mangá, pessoas querendo impor sua visão de realidade como certa, principalmente em cima de uma obra como Oyasumi Punpun.

    Conforme os personagens envelhecem e amadurecem, as coisas vão ficando mais complexas. Na verdade, não é "complexa" a palavra certa, mas sim "profunda". As coisas ficam mais profundas, e mais amplas enquanto vemos diferentes realidades sendo exploradas. Uma das coisas que mais me agradou no mangá foi como o autor se dedicou a explorar vários dos personagens secundários, ao invés de focar apenas no Punpun. Isso talvez tenha sido um dos estopins para tornar a obra tão interpretável. Claro, por ter uma boa gama de personagens, alguns acabaram sendo deixados de lado, tendo um desenvolvimento bem básico, ou simplesmente não sendo muito pouco explorados, o que é uma pena, visto o que o autor fez com os vários outros personagens.

    Enfim, o autor nos mostra diferentes realidades que fazem a obra ressoar com você de várias maneiras diferentes. Quando o Asano decide trabalhar algum personagem, ele realmente trabalha o personagem, ao menos no meu caso, eu realmente pude me colocar no lugar de cada um desses personagens, entender suas realidades, suas emoções, e no fim acabar entendendo o lado de cada um deles. Eu gostei bastante de quase todo o cast de personagens, todos que tiveram foco basicamente, e isso não é um feito que qualquer um consegue. Mas, no fim das contas, eu acredito que acaba sendo muito um exercício de empatia também, pois no momento em que você não conseguir se colocar no lugar desses personagens, talvez você acabe simplesmente achando tudo muito chato. 
    Como alguém que sempre teve esse ímpeto de buscar entender o lado dos outros, eu posso dizer que eu criticaria as ações erradas deles sim, mas ao mesmo tempo, defenderia suas motivações. Pois no fim a realidade é isso, multifacetada até mesmo quando falando de realidades individuais de cada pessoa.

    A vida é cheia de conflitos, geralmente não tanto na infância e adolescência, mas quando na vida adulta, acaba sendo inevitável. E eu não falo só de conflitos com outras pessoas, mas também de conflitos consigo mesmo. É natural, uma vez que enquanto seu corpo e mente estão em formação, suas emoções e visão de mundo estão em constante mudança. Uma vez adulto, isso se torna mais sólido, e dependendo da situação em que se encontra, se torna realmente difícil encontrar em si mesmo a energia para mudar novamente. Com isso, quando você não se adapta ao ambiente ao seu redor, você estagna, e lentamente vê sua vida ir embora sem nada ter feito. Chega uma hora que você tem que encarar não só seus próprios demônios, mas também os demônios dos outros, pois tal é o tão falado "convívio social". No entanto, mesmo esses passos ainda são longínquas escadarias para muitas pessoas, e uma pequena subida para outras, como disse: Cada um vive sua própria realidade. Mas nem por isso devemos deixar de olhar para os lados, ou acreditar que a nossa realidade é a única válida.

    Eu sinto que a sociedade mede nossos acertos e erros de maneira desproporcional, como se 100 acertos só pesassem o mesmo que um único erro. Hoje em dia em especial, é tudo muito drástico, 8 ou 80, pessoas jogam o dado de 20 lados como se fossem tirar cara ou coroa. Imagina viver sob a pressão de que você não pode errar, pois acredita que será o fim do mundo? Ironicamente isso só aumentariam suas chances de cometer erros. A maneira que o mangá aborda esse tópico é no ponto, e eu fiquei bem satisfeito em como o autor em nenhum momento se rendeu a uma dualidade desnecessária.

    Punpun e o seguir em frente
    "Vivemos esperando dias melhores, dias de paz, dias a mais."
    Acima de tudo, acredito que das coisas mais importantes que o mangá quis passar adiante, é a de que por mais difícil que a vida pareça, precisamos seguir em frente, contar com os amigos e/ou familiares dispostos a ajudar sempre que for necessário e principalmente sermos nós mesmos.
    O egoísmo também tem um papel importante no seguir em frente, por mais que essa seja uma característica que possa facilmente ser algo negativo, se não formos egoístas não conseguiríamos nem sobreviver, algo também implícito no mangá. Machucar os outros, ser machucado, se machucar para não machucar, machucar para não se machucar, tais coisas são inevitáveis quando se trata de conviver em sociedade.

    Depois de tudo o que eu falei nesse texto, fica evidente que viver não é fácil, embora o quão difícil seja vá variar de pessoa para pessoa, vai ser sempre um caminho provavelmente com longos períodos muito difíceis, mas mais importante, também terão longos períodos felizes e memoráveis. Oyasumi Punpun é uma obra trágica, onde certas coisas simplesmente eram inevitáveis, mas em todo momento eu senti que havia um teor esperançoso por trás. Talvez eu seja uma rara exceção em ter esse tipo de ponto de vista, mas Oyasumi Punpun é, acima de um mangá que conta uma história, uma grande e marcante experiência, e a minha experiência é a de que a vida não é, ou melhor dizendo, pode não ser tão ruim quanto parece. Claro, tal como uma Visual Novel, a vida lhe proporcionará incontáveis escolhas que vão influenciar positivamente ou negativamente o seu futuro, mas veja só, se de fato existe a opção de escolha, ou seja, se não for uma situação simplesmente inevitável, então as coisas podem sim serem bem melhores. Na minha concepção, o mangá tenta nos ensinar "o que não fazer", de certa forma, mas também que caso façamos as escolhas erradas, e soframos muito por isso, ainda assim, enquanto vivermos precisamos seguir em frente.

    Punpun e o boneco Daruma
    "É chato chegar a um objetivo num instante."
    Um simbolismo recorrente na obra é o boneco Daruma e o que os olhos representam. O boneco Daruma é uma tradição bem antiga e popular no Japão, o boneco, que vem com os dois olhos vazios, possuí um processo simples:
    Tenha um objetivo, desejo ou promessa à cumprir. Pinte um dos olhos. Trabalhe em prol disso todos os dias. Quando o sonho for alcançado, você pinta o outro olho.
    A história por trás, pegando emprestado e traduzindo de um outro site, é que os bonecos Daruma são lembretes constantes do que os japoneses chamam de espírito de perseverança. A vida é uma estrada cheia de armadilhas e solavancos. É inevitável que você tropece às vezes.

    Mas cabe a você subir de volta. Depende do seu próprio poder e força de vontade de continuar em movimento. O boneco incorpora um popular provérbio japonês: Nanakorobi yaoki. Que significa "Cair sete vezes, levantar oito."
    Sabendo disso, muita coisa faz mais sentido na obra, não digo mais do que isso para não entregar nenhum grande spoiler, mas definitivamente fará toda diferença saber desse aspecto cultural abordado no mangá. Ao menos para mim, certas cenas tiveram um impacto a mais, quiça um significado a mais, por eu saber que existiam camadas a serem perfuradas em cenas que a principio não diziam muita coisa. Foi um dos motivos que ajudaram a consolidar minha visão geral sobre a obra, acima de tudo.

    Punpun e a conclusão
    "É fácil encontrar o que é errado, difícil é encontrar o que é certo."
    Concluindo, Punpun foi definitivamente uma experiência memorável, com muitas grandes ideias sendo abordadas tanto em grande escala quanto em pequena escala, mas sem dúvidas todas com o devido cuidado. Ela não é uma obra feliz, nem positiva, no entanto, ela pode te ensinar valores positivos através das coisas ruins mostradas que podem ser importantes para que você busque um futuro mais feliz de uma forma ou de outra. Pode ser que seja uma leitura pesada, mas ao mesmo tempo pode se tornar um mangá que abrirá horizontes na sua forma de ver o mundo e talvez cause mudanças importantes em você. Talvez não te impressione muito, ache exagerado ou negativo demais, mas assim é a vida, enquanto muitos sofrem, outros muitos vivem felizes. É importante reconhecer que Oyasumi Punpun cumpre seu papel mostrando certos tristes aspectos da realidade (E alguns felizes também, vá lá), e reconhecer o valor que isso possui, talvez não para você quem sabe, mas para muitos outros sem dúvidas. Isso porque indiscutivelmente o mangá se mantém coerente com suas próprias realidades, transmitidas com maestria por um seleto grupo de personagens, orgânicos o suficiente para que você consiga se identificar com incontáveis situações e diálogos.

    Asano respeita o leitor, deixando que ele sinta suas próprias emoções ao ler Oyasumi Punpun, e que suas experiências de vida e o que constitui a sua existência reajam naturalmente ao que a obra representa, onde certamente o próprio Asano também se inclui nisso enquanto escrevia e desenhava o seu mangá. À frente do seu tempo, Oyasumi Punpun é um mangá que provavelmente continuará atual por muito tempo ainda, e que eu recomendo ser experienciado por todo mundo, independente dos seus gostos, personalidade ou mesmo a vida. A jornada que o mangá proporciona mostrará não só profundos comentários sociais e análises psicológicas, mas também dirá muito sobre você mesmo.
    Não chegou a ser meu mangá favorito, mas provavelmente estaria entre os 10 melhores que eu já li até hoje. Não sei se a review estará satisfatória para os grandes fãs do mangá e do autor, ou se é balela demais para quem não gostou, mas é um texto que eu escrevi com a alma, sem me preocupar com abordagens típicas que a maioria parece seguir, o que para mim é o ideal a se fazer no geral, mas em Oyasumi Punpun em especial isso é ainda mais real. Saraba Da!


    OBS: Os subtítulos de cada seção foi uma ideia que tive no acaso, mas que após um tempo acabei achando muito nada a ver e pensei em tirar haha. Porém, como antes dito, decidi deixar tudo do jeito que saiu conforme escrevia, da maneira mais crua e instintiva.
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