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[Review] Final Fantasy VII Remake
No dia 16 de dezembro de 2021, a versão para PC de Final Fantasy VII Remake (Originalmente de 2020) foi lançada. Como eu não tenho consoles, estive esperando esse momento para poder jogar essa reimaginação do clássico de 1997. Consegui terminar o jogo em mais ou menos 2 semanas, incluindo a DLC INTERmission e queria aproveitar o ímpeto para comentar um pouco sobre a obra que reconta os eventos das primeiras 5-6 horas do jogo original. Por sinal, eu já publiquei uma análise sobre Final Fantasy VII aqui no blog há alguns anos, caso queira saber a minha visão sobre o jogo. Inclusive, na análise que fiz do jogo original, comentei algumas coisas que acabaram se tornando bem pertinentes agora que pude jogar o remake, como eu ter mencionado que essa parte de Midgar no original é conceitualmente muito interessante, porém, muito pouco explorado (São meras 5-6 horas, afinal). Enfim, deem uma olhada lá, se quiserem!
Em Final Fantasy VII Remake, a primeira parte dessa reimaginação, acompanhamos a jornada de Cloud Strife pela cidade de Midgar e o seu confronto direto contra a gigantesca organização chamada Shinra, que basicamente exerce um comando em toda a cidade. Cloud atua em conjunto com a Avalanche, uma organização que é inimiga direta da Shinra, como um mercenário contratado. Como o jogo se inicia já na primeira missão do Cloud junto da Avalanche, você de cara já tem uma boa experiência de como funciona a jogabilidade do jogo. Basicamente, FFVIIR (Abreviação que irei usar a partir de agora) é um RPG de ação com alguns diferenciais bem legais, como o jogo entrar em câmera lenta na hora que você entra no menu para usar algum item, técnica ou magia, mas também ter a opção de atalho rápido que aumenta bastante o dinamismo das batalhas. O sistema de matérias que também está presente no original é muito versátil, você pode montar seus personagens de diferentes formas, com diferentes estratégias e estilos. O mesmo pode ser dito para as armas, que apesar de serem poucas, tem um sistema de evolução que você pode controlar. Tudo isso faz com que o jogo seja bem divertido de se jogar, ainda que ele seja relativamente fácil durante a maior parte do tempo (Teve umas meia dúzia de batalhas que realmente foram mais desafiadoras, mas no geral, foi bem tranquilo). Mas eu também já havia achado o original bem fácil e não tive problemas com isso, então menciono só para compartilhar minha visão mesmo. No mais, terminar o jogo desbloqueia o nível difícil, e a boa jogabilidade te convida a rejogar em uma dificuldade maior, algo que vale a pena para quem quer ter mais desafios durante o jogo.
Além da jogabilidade, o jogo também está visualmente impressionante. Eu poderia vir aqui comentar sobre alguns aspectos visuais em algumas áreas que não estão tão bem polidos e deixam a desejar, mas eu honestamente não me importo tanto com gráficos impecáveis até por não ter monitor 4K e essas papagaiadas todas (Até porque os personagens estão lindos, e os cenários, em sua maioria, também). O jogo está belíssimo, o que é curioso já que ele se passa em lugares ou muito pobres, como favelas, ou muito sujos, como depósitos de lixo e lugares abandonados. Conceitualmente falando os visuais entregam muito bem a desigualdade desses lugares, o que casa perfeitamente com a temática do jogo em si. Explorar essas áreas geralmente é muito legal, apesar de eu ter achado uma ou outra área muito monótona ou cansativa. Fiz todas as missões secundárias do jogo e recomendo a quem for jogar que dedique esse tempinho extra para fazê-las, pois elas ajudam a enriquecer os ambientes das favelas de Midgar, te mostrando um pouco da vida dos residentes dali, conhecendo histórias e figuras que dão identidade para esses lugares. O jogo se empenha e consegue nos mostrar a realidade de Midgar, que diferente dos antagonistas, que fazem o conflito principal ser muito maniqueísta, essa realidade não é super dramatizada ou mesmo romantizada. A gente vê um cenário bem pé no chão, pessoas felizes, pessoas tristes, pessoas boas, pessoas ruins, todas vivendo e sobrevivendo em um ambiente mais pobre e até esquecido pelos governantes de Midgar, uma vez que são os próprios residentes das favelas que ajudam a comunidade a se sustentar, a ter água limpa, educação ou mesmo empregos. Em algumas situações vemos que pessoas da Avalanche que precisam eliminar monstros nos arredores ou vigiar as favelas, pois os soldados da Shinra estão pouco se lixando.
Eu sempre aprecio muito essas missões secundárias que em nada importam para a história principal do jogo, mas enriquecem a narrativa e a construção de mundo da obra, em FFVIIR até as missões mais bobinhas acabam ganhando um novo sentido devido ao contexto em que elas ocorrem. Como em um momento onde as pessoas de um local estão desesperançosas e uma menina te dá a missão de achar uns discos de música pela cidade para animar o pessoal e a cada disco de música que você encontra e põe para tocar, um dos residentes ali relembra de momentos felizes da sua vida que estão conectados com aquele tipo de música e recuperam o espírito. Ou em outra missão onde as crianças de um setor da cidade tentam ajudar na patrulha porque, mesmo sem entender, sentem que os adultos precisam se dedicar demais para manter o local de pé. E claro, tal como os discos reerguem a força de vontade de alguns figurantes em uma missão secundária, a trilha sonora de FFVIIR faz um papel exemplar em dar emoção ao jogo. Seja na exploração, ou nas batalhas, o jogo tem uma trilha sonora rica e memorável. Eles tentaram variar o máximo possível para não ficar muito repetitivo, e conseguiram na maior parte do tempo, tendo algumas músicas excelentes que eu até achei que apareceram de menos. Ainda no áudio, joguei com a dublagem japonesa que estava muito boa, há uma diferença considerável nos diálogos do jogo em japonês para o jogo em inglês, eu pessoalmente preferi muito mais o japonês por soar mais próximo das personalidades dos personagens e as cenas em si. Os diálogos em inglês são muito mais informais, com mais piadinhas e, mais importante, são muito mais explícitos no que querem passar. Não vejo muito o porque tentar definir um melhor ou pior, mas se você conseguir entender japonês falado e preferir algo mais sútil e interpretativo, como é o meu caso, fica aí a citação.
Tudo isso nos trás aos pontos mais importantes da obra: A história e seus personagens. A cerne da história é um grupo de revolucionários ativistas ambientais (Avalanche) que busca derrubar a grande corporação que controla Midgar e explora abusivamente os recursos naturais do planeta a fim de obter riqueza e desenvolvimento tecnológico (Shinra). Ou seja, a temática é bem fácil de entender. Acontece que, esse conflito possui muitas facetas que são exploradas ao longo do jogo. Os rostos por trás da Shinra são quase todos bem vilões, mas as ações da Shinra fazem a cidade se desenvolver tecnologicamente e trás mais conforto para as classes menos pobres de lá. A questão é: vocês abririam mão de ter coisas mais legais e confortáveis para uso próprio para que o planeta seja menos destruído? Muitos se negariam, e isso é algo questionado no próprio jogo, para o qual Barrett, um veterano da Avalanche, prontamente diz que sim, abriria mão do que fosse preciso, pois essa é a luta dele. Como a Shinra jamais cederia nesse conflito, a Avalanche acaba tendo que tomar medidas mais extremas, como destruir as principais máquinas que sugam a energia do planeta, chamada de Mako e tida basicamente como a vida do planeta em si, o que faz a Shinra denunciá-los como ecoterroristas para a mídia, o que por sua vez causa pânico na população. A Avalanche não passa ilesa nesse conflito, uma vez que a luta pela causa acaba trazendo muita dor e sofrimento para muita gente, pessoas que inclusive não tem nada haver com o grupo. Nesse aspecto, existem os prós e contras de ambos os lados, embora o jogo faça total questão de mostrar quem são os mocinhos e quem são os vilões, algo que no original era um pouco mais ambíguo, mas acredito que a Square Enix preferiu tirar uma parte do peso das ações da Avalanche dos personagens.
FFVIIR é um jogo com uma narrativa muito bem equilibrada. O protagonista, Cloud, é um ex-soldado da Shinra, Barrett é a figura que representa a Avalanche no jogo, a Tifa é uma residente das favelas de Midgar que acaba optando por participar do conflito e a Aerith é, sem dar spoilers, uma figura mais relevante para a história em si. É um núcleo de personagens jogáveis bem diversificado e junto dos vários personagens secundários que se mostram relevantes para a narrativa, temos um cast de personagem elogiável. Caso não tenha lido a análise que escrevi do Final Fantasy VII original, eu menciono que apesar de bom jogo, ele pouco se destaca em algum aspecto, além de ter achado toda essa parte de Midgar curta demais e mal explorada. Esse remake "conserta" esses problemas, tornando Midgar um lugar super explorado e dando uma construção e desenvolvimento dignos para os personagens. Você vê a transformação que os personagens vão passando ao longo do jogo, e você sente eles se aproximando e realmente se tornando amigos ou pessoas de confiança. Você sente o peso dos eventos da história, os momentos dramáticos realmente te impactam. A narrativa do jogo é exemplar, ainda que a história tenha seus problemas, como a ideia dos Murmúrios que acabou sendo usada de maneira forçada em alguns pontos, quebrando a suspensão de descrença e tirando qualquer tensão que teria em algumas cenas. A ideia por si só é bem interessante, ainda mais quando olhamos para um sentido metafórico de que eles estariam te protegendo de um futuro incerto e assustador, mas que nem sempre o certo e seguro é o que você quer para sua vida. Isso vale para todos os personagens, que crescem no decorrer da trama, que vivem as experiências que acontecem com eles e absorvem aquilo como uma lição de vida, consequentemente mudando aos poucos. Embora eles emanem carisma desde 25 anos atrás, pela primeira vez eu me senti conectado a esses personagens icônicos, senti que eles se tornaram personagens mais completos nesse remake, ao ponto de que fico ansioso para ver a(s) próxima(s) partes dessa reimaginação. Na minha opinião, até a presença do Sephiroth foi um dos maiores acertos do remake, uma vez que o lendário antagonista era um personagem muito pouco presente no original, fazendo com o que ele ficasse mal explorado, muito embora boa parte do lore da obra gire em torno dele. Aqui usam dos problemas psicológicos do Cloud para fazer dele uma presença constante e memorável, o que fortalece muito o personagem para as próximas partes.
No fim das contas, um remake precisa buscar ser uma versão melhor de si mesmo, isso é, pegar a base que já existe e melhorar no que for possível sem alterar a essência do original. Nisso, o remake acerta com maestria. Como eu vi outra pessoa comentando, esse remake em relação ao original é como se tivessem pegado uma boa animação de 3 minutos e transformado em um ótimo longa-metragem. Apesar do remake ter estendido as primeiras 5 horas do original em 40 horas, raramente você sente que o jogo está enrolando ou "enchendo linguiça", como a velha expressão diz. E o que tem de novo é, em sua maior parte, excepcional. Isso vale, sobretudo, para o INTERmission, a DLC que veio nessa versão de PC e PS5 (Intergrade) onde você joga com a Yuffie, uma das 9 personagens jogáveis do original. Ela, assim como os outros personagens, também teve um bom desenvolvimento e construção de personagem nas 6 horas que durou, moldando o caráter e perspectiva da personagem para alguém com motivos de sobra para se juntar ao grupo principal. Isso, além de acrescentar algumas informações essenciais para as próximas partes da série, tornam essa DLC crucial para qualquer um que queira jogar as próximas partes de FFVIIR.
Entre momentos épicos, dramáticos, divertidos e aconchegantes, FFVIIR trás uma experiência realmente elogiável. Sendo ambicioso como o original era, ele consegue criar uma grande história que entre muitos altos e poucos baixos, te deixa tanto satisfeito quanto ansioso para o que tem por vir. Embora seja só a primeira parte, o jogo tem um fechamento decente, o que faz dele um jogo bem completo. Valeu a pena esperar tanto para jogá-lo no PC (Talvez seja esperar demais, mas tomara que as próximas partes lancem direto em múltiplas plataformas, ou ao menos tenham contratos mais curtos). Bater na tecla da preservação do meio ambiente era bem necessário em 1997, quando o original lançou, mas hoje em dia está ainda mais necessário. No mais, o remake fez questão de tornar Midgar um lugar muito facilmente visualizável e muito mais importante para a narrativa, esse ambiente rústico fará falta. Final Fantasy VII Remake é um jogo muito bom, que certamente vale a pena jogar tanto para os fãs do original, quanto para quem nunca jogou nenhum Final Fantasy, definitivamente não será a última vez que irei jogá-lo. Saraba Da!
[Review] Final Fantasy XIII-2
Há mais de um ano eu rejoguei Final Fantasy XIII e o analisei aqui no blog, recomendo bastante a leitura já que foi um texto que escrevi com muito gosto e pode te animar a jogar a trilogia caso não tenha o feito ainda. Hoje, trago uma análise da continuação daquele jogo. Nomeado de Final Fantasy XIII-2, o jogo foi lançado em 2011 no Japão e 2012 no resto do mundo, estando disponível no Playstation, Xbox e PC (Onde eu joguei).
Obs: Essa review conterá spoilers leves, nada que estrague a experiência do jogo em si, mas caso não tenha jogado Final Fantasy XIII ainda e pretenda, recomendo primeiro jogar a prequela para depois ler essa análise.
Final Fantasy XIII-2 segue pouco depois do término da sua prequela, em um prólogo épico com aquelas cutscenes de encher os olhos que a trilogia possui. Ao mesmo tempo, já levanta muitas dúvidas, visto que o primeiro jogo tem um final relativamente bem conclusivo. Terminando o prólogo, você descobre talvez um dos elementos mais determinantes do jogo: A mudança de protagonista. Essa sequel é protagonizada pela Serah e pelo Noel, os únicos personagens jogáveis do jogo (Há uma terceira vaga na equipe que é ocupada por monstros do jogo que você pode capturar e usar como aliado). Essa mudança atinge não só a experiência do jogador como também boa parte da estrutura narrativa, principalmente quando comparamos com seu antecessor, que era um jogo muito menos linear e muito mais sociologicamente reflexivo, enquanto o XIII-2 é mais direto ao ponto e tradicional. A ironia está justamente no fato da temática de viagem no tempo ser o elemento principal desse jogo, mas ele ainda assim ser bastante linear em termos de história. Admitidamente, a obra não me impressionou muito durante a maior parte do seu percurso, ainda que ela não cometesse erros graves, ela também não demonstrava uma força criativa muito grande, exceto em alguns momentos em especial onde o jogo resgatou a coragem da prequela em trazer abordagens muito menos comuns e muito mais arriscadas. Mas vamos passo por passo, primeiro.
Logo no início, somos introduzidos à temática de viagem no tempo, que é a grande base de toda a escrita do jogo. A viagem no tempo é crucial para a história, para o lore, para a jogabilidade e até para os temas e filosofias abordadas ao longo da trama. No entanto, o aspecto da viagem no tempo em si funciona em níveis diferentes em cada setor da obra. Vou explicar como foi a execução em cada um dos fatores pois, dada a relevância desse aspecto em todo o jogo, acaba sendo uma forma de enxergar o que a obra buscou fazer e se ela fez bem.
[Review] Final Fantasy XIII
Análises de jogos é algo bem raro de eu trazer aqui para o blog, e definitivamente não é por falta de interesse meu pela mídia, muito pelo contrário, eu tenho uma relação com jogos que talvez até surpreenda muita gente. Mas, de vez em quando, não posso evitar de querer falar sobre experiências únicas que foram marcantes o suficiente para merecerem ser registradas neste humilde site. Final Fantasy XIII certamente é um desses casos. Joguei FF13 a primeira vez em 2018, e havia gostado bastante do jogo. Agora, em 2020, rejoguei ele e posso dizer que tive uma experiência bem diferente, e superior, da anterior. Apesar de terem sido apenas 2 anos de distância entre a primeira e a segunda vez, a sensação que ficou foi a de eu ter jogado a primeira vez há 10 anos e a segunda agora. Não acho que eu particularmente tenha amadurecido muita coisa de 2018 pra cá, mas a forma com o qual eu absorvi o jogo definitivamente amadureceu bastante. Dito isso, vamos ao jogo.
OBS: Haverão alguns spoilers, mas nada que prejudique muito a experiência!
Lançado em 2009, Final Fantasy XIII trás uma história rica em temáticas precisas e profundas, e embora não fosse necessariamente algo novo em qualquer mercado de entretenimento, a forma que suas ideias foram executadas não deixou a desejar. Felizmente para a obra e infelizmente para nós, muito do discurso de FF13 acabou notoriamente se tornando mais atual, ou ao menos mais evidente, com o passar dos anos. É fácil afirmar que, se fosse lançado em 2020, teria bastante espaço nas discussões que frequentemente acontecem na internet.
Narrativamente falando, o jogo já começa bem agitado, talvez por uma grande ironia do destino, a coisa que vemos da obra é um trem em movimento. Ironia, pois, o trem em movimento pode muito bem simbolizar a forma que somos introduzidos à narrativa, como diria o famoso ditado: "Pegando o bonde andando". Não sabemos muito bem o que está acontecendo, mas algo está acontecendo, e está acontecendo já há algum tempo. Os passageiros do trem, todos usando a mesma vestimenta enquanto vigiadas por soldados, são libertadas quando a protagonista, Lightning, confronta e derrota os militares. Ela, junto de Sazh, um dos passageiros que preferiu segui-la, tem um local em mente para alcançar. Conforme avançamos rumo ao nosso destino, vamos aprendendo aos poucos o que é o que e quem é quem. O jogo busca fazer tudo da forma mais natural possível, sem precisar recorrer ao expositivo, o que muitas vezes pode se tornar um desafio caso você não preste atenção direito nos diálogos e nas cenas. Mas tudo bem, há uma opção no menu que explica tudo que o jogo já explicou, não só para caso você se perca, mas também como uma boa forma de refrescar a memória.
A princípio, o progresso da história se dá em conhecer a Lightning e o Sazh, dois personagens que também não se conheciam, enquanto as revelações trazem novos mistérios. Toda a apresentação da obra é bem interessante, a Lightning é aparentemente bem séria e preparada para tudo que está acontecendo, enquanto o Sazh não parece saber muito bem o que está fazendo, mas faz mesmo assim por motivos pessoais, enquanto tenta evitar que a tensão o consuma por completo. Mas, logo as circunstâncias mudam quando há uma troca de perspectiva e passamos a jogar com um dos outros 6 protagonistas da trama, Snow. Quando falamos de protagonista, ele certamente é o que mais se encaixa no perfil. Altruísta, determinado e com um objetivo claro em mente, ele é tanto o mais fácil de entender quanto o mais difícil, algo que só fica mais evidente depois que começamos a explorar suas diversas camadas. A troca de perspectiva é um fator bem frequente ao longo de todo o jogo, e apesar de ser um aspecto da jogabilidade da obra, isso serve diferentes propósitos narrativos em diferentes momentos da história.
Quando conhecemos o Hope, um garoto tímido e amedrontado, e a Vanille, uma garota alto astral e destemida, basicamente fechamos o cast que iremos acompanhar pelos próximos vários capítulos. Alternamos entre esses 3 núcleos em uma frequência ideal para manter a narrativa coesa sem atrapalhar o ritmo da progressão da história.
Na altura que começamos a acompanhar a jornada de Snow, já enxergamos em maior escopo algumas coisas de grande relevância para a história, seja o contexto mais sombrio por trás das ações do governo em relação ao povo, ou a própria mentalidade preconceituosa e temerosa semeada ao longo dos anos por um sistema cultural criado e regido por esse mesmo governo. Há todo um embate psicológico dos personagens contra eles mesmos em que suas crenças são postas à prova, e o psicológico de cada um desses 6 protagonistas é devidamente aprofundado e desenvolvido.
O ritmo da obra estranhamente consegue ser tanto acelerado quanto lento, e isso faz com que o jogo já comece com muita coisa acontecendo, mas a história em si só comece a desabrochar no fim do capítulo 2, de um total de 13. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo, visto que embora os primeiros capítulos te deem muito pano pra manga para você refletir sobre, nos capítulos intermediários, onde há uma redução considerável de eventos, você fica com a sensação da história estar se arrastando um pouco. Na primeira vez que joguei, essa impressão me atingiu com mais força, prejudicando um pouco meu aproveitamento. No entanto, agora nessa segunda vez, eu já enxergo muito do que parecia arrastado como partes essenciais para a caracterização de alguns personagens e o desenvolvimento de outros. Bem ou mal, o jogo é bem eficaz em se focar no que é importante e dar um bom propósito para tudo ser do jeito que é. Um exemplo interessante vem no próprio aspecto da troca de perspectivas, pois o tom do jogo muda conforme jogamos com personagens diferentes. Com a Lightning e o Sazh, a narrativa é mais melancólica e séria, com o Snow é mais dinâmico e otimista, com o Hope e a Vanille há um tom mais confuso, impulsivo e ansiedade, e por aí vai.
Esse enfoque permite que tenhamos uma maior noção do que se passa na cabeça de cada um, no que eles acreditam ou o que eles sentem. Geralmente tudo isso é feito com muito cuidado para evitar algo expositivo, a Vanille, por exemplo, vira e mexe dá algumas deixas sobre si mesma sem realmente dizer nada, só através do seu comportamento. Se prestar atenção, talvez você até possa dizer que alguns desenvolvimentos foram previsíveis, muito pelo que fica naturalmente subentendido no ar em várias situações. O Sazh é outro grande exemplo, já que muitas vezes ele parece ser o alivio cômico, mas logo você percebe que aquela é a posição que ele prefere estar, mas que muito passa por sua cabeça enquanto ele tenta evitar cair em desespero. E claro, temos a personagem da capa, Lightning, que nos impressiona muito durante todo o percurso do jogo, apresentando toda uma dualidade entre seu lado forte e inabalável, com seus conflitos e fraquezas emocionais que elevam a jornada da personagem a algo muito mais humano, cheio de erros e acertos.
A história, quiça até os personagens, de maneira geral, são até que relativamente simples quando olhamos só para a base deles, mas eles são muito fomentados por uma construção de mundo complexa, que consegue inserir com maestria todo o contexto social que os personagens vivem e a história se passa, tornando essa complexidade parte deles. Cada coisa ali pode ter sua base facilmente definida por poucas palavras, mas todo o desenvolvimento embasado em uma construção de mundo bem elaborada faz tudo ser muito único, uma história e personagens que só poderiam ser criados naquele contexto. É um tipo de profundidade que reflete bem a vida real, como uma pessoa que conhecemos de longe e só conseguimos defini-la com uma ou outra característica, mas que quando a conhecemos de fato, descobrimos que ela também carrega sua história, qualidades e defeitos únicos dela.
Apesar de tudo, eu tenho que dizer que toda a criatividade realmente foi gasta no desenvolvimento do universo da obra, da história e dos personagens, pois o jogo parece ter um sério problema no uso dos nomes. Por exemplo, quase toda a trama se passa em Cocoon, uma gigantesca esfera flutuante. É óbvio até demais que Cocoon se chama Cocoon como um simbolismo para as milhões de pessoas que ali vivem, encasuladas sem realmente entender o que é o mundo do lado de fora do casulo. Outro exemplo é um dos protagonistas, Hope, que já deixa claro que ele se chamar 'esperança' é algo que eventualmente vai ser usado na obra. Mas, infelizmente, além desses casos inofensivos, há instâncias que o uso dos nomes acaba servindo como uma "sacada esperta" muito da mal feita, que nem entro em detalhes para evitar entregar demais sobre a trama. Embora, por outro lado, também pode acontecer de ser usado de forma legal, como o motivo da protagonista, Lightning, usar esse nome.
Essa questão dos nomes acaba sendo uma consequência do jogo realmente tentar dar um propósito para a maioria das coisas que você vê ou faz. Isso é algo que vai do fato do vilão da história ser uma figura religiosa de alta patente, como um papa, até os próprios aspectos da jogabilidade de forma geral. No caso do vilão, Dysley, ele consegue funcionar tanto como uma alegoria ao fanatismo religioso quanto uma crítica a uma sociedade que está disposta a abandonar completamente o raciocínio lógico se isso for deixar a vida dela mais fácil, tanto ideologicamente quanto literalmente falando, algo que em 2020 é bem mais evidente do que era em 2009. Em suma, um bom vilão que, embora peque em profundidade como personagem, entrega de sobra quando se trata de profundidade temática, algo que acontece também com alguns outros personagens secundários, como o Rosch ou o Raines. Esses dois, inclusive, servindo como uma representação simbólica das duas grandes ideologias debatidas ao longo da obra. Isso é, tanto que os fins justificam os meios, quanto ter a liberdade individual para seguir o caminho que você acredita ser melhor para si.
Mas como eu já afirmei e reafirmei, o mesmo não pode ser dito do cast principal, que é regado de um vasto desenvolvimento e uma ótima caracterização. Posso garantir, sem hipérbole, que eu poderia muito bem escrever um post inteiro para cada um dos personagens principais, com exceção talvez da Fang, que por chegar aos holofotes bem mais tarde que os demais personagens, acaba não tendo um desenvolvimento tão extenso assim. Claro, tudo o que penso sobre eles é baseado apenas no primeiro jogo, Final Fantasy XIII, pois não faço a menor ideia do destino que cada um deles tem no decorrer da trilogia, mas eventualmente hei de descobrir.
É incrível como eles conseguem trazer um desenvolvimento sútil e orgânico para os personagens, mesmo quando todos estão ali sendo trabalhados simultaneamente. O mais surpreendente é como eles conectam esses personagens, e como, de maneira bem crível, essas conexões afetam uns aos outros. É algo muito natural do ser humano, a influência que recebemos daqueles que convivemos acabar nos impactando de forma que mudamos nossa forma de pensar, ou até a nossa forma de ser. O próprio ambiente e circunstância acaba sendo uma forte influência para alguns deles, o que dá uma verossimilhança não só para os personagens, mas para as próprias situações em si. Um grupo de pessoas que cresceu em um sistema problemático e que agora vê esse mesmo sistema colocar o mundo inteiro contra eles de forma injusta, onde a própria obra em momento algo põe o pensamento independente como algo positivo, mas sim como algo necessário, evitando tornar simples e uniforme a ideia de descobrir, entender e enfrentar a verdade. Cada um deles lida com aquilo de uma forma diferente, mas cada um deles também está sujeito a fazer escolhas erradas e tendo que buscar outras alternativas quando já havia sido quase impossível encontrar apenas uma. Eles estão constantemente mostrando diferentes faces de si mesmo, e quando não estão, pode ter certeza que há algo de errado, ou escondido, naquilo. Até mesmo o contexto social em que cada um estava inserido acaba sendo relevante para a postura do personagem. A Lightning, basicamente uma ex-policial, lida muito melhor com situações extremas e o desgaste físico em relação aos outros, enquanto o Hope, que era só um garoto de 14 anos cujo maior problema na vida era não lidar muito bem com o pai ausente, agora se vê constantemente em situações de vida ou morte, com o emocional e o psicológico à beira do colapso. Existe uma pluralidade muito grande que é muito bem explorada, que adentra a mente e expõe as emoções de cada um na medida e no tempo certo, fazendo o cast ser realmente especial.
Apesar de ser de 2009, o jogo é incrivelmente lindo e ele não hesita em usar os gráficos ao seu favor. Visitamos uma grande variedade de cenários diferentes ao longo do jogo, que não estão ali só para nos encher os olhos, como também expandir, na prática, todo o universo da obra. Passamos pelo cyberpunk, por áreas tropicais, parque de diversões e até aeronaves em movimento. Cada cantinho ali vai te dizer alguma coisa sobre o mundo da obra, o que revela muito sobre o que eu disse sobre tudo ter um propósito, coisa que vou falar mais logo, logo.
A trilha sonora é espetacular, as piores músicas do jogo ainda são boas, enquanto as melhores são realmente memoráveis. A aplicação do som nas cenas costuma ser muito certeiro, no sentido de que as músicas certas são usadas nas cenas certas. Isso significa que algumas excelentes músicas só vão tocar uma vez ou outra ao longo do jogo, mas é um preço baixo que, em troca, torna tudo muito mais imersivo e atmosférico. Em certo ponto do jogo, por exemplo, chegamos em uma área que tem uma atmosfera muito melancólica, dá para sentir o baixo astral do local extremamente sem vida, e quando entramos em uma batalha, ao invés de tocar a música de combate de sempre, a música melancólica do mapa nunca para de tocar.
Final Fantasy XIII tem uma jogabilidade muito interessante, pois ao invés de fazer só o basicão de sempre, buscou inovar e ainda fez isso de forma que a jogabilidade servisse à narrativa. Na mitologia do universo da obra, existem os humanos e os fal'Cie, entidades superpoderosas que existem por todo o mundo. Os fal'Cie podem colocar uma marca nos seres humanos e transformá-los em l'Cie, que são basicamente servos dos fal'Cie condenados a cumprirem uma missão específica, caso contrário se transformarão em monstros chamados de Cie'th. Quando um humano vira um l'Cie, ele ganha a capacidade de usar magia e se fortalecer conforme ganha mais experiência em combate. Então, no começo do jogo, você nem sequer pode "subir de nível", pois os personagens são humanos e essa mecânica só é liberada quando eles são transformados em l'Cie, pois só aí eles podem, de fato, começarem a desenvolver seus poderes. Outro caso é a linearidade dos mapas, que representam bem o senso de urgência aplicado ao longo da narrativa, visto que os personagens são fugitivos e, logo, não podem ficar passeando por aí. Isso é até um aspecto bastante criticado por quem queria algo mais básico de RPG, como mundo aberto e missões (Spoiler: Não é como se o jogo não tivesse, vale dizer). Eu, particularmente, não me importei, visto que não é um defeito per se, mas sim um estilo de jogo.
A parte mais legal talvez seja o sistema de combate, que visou um estilo de combate em tempo real. Então o jogo acaba exigindo bastante estratégia, pensamento rápido, timing e, claro, um pouco de sorte. Você tem as classes Commando (Ataque físico), Ravager (Ataque mágico), Medic (Cura), Sentinel (Defesa), Synergyst (Buff) e Saboteur (Debuff), fora um sistema de atordoamento que exige constantes ataques até encher uma porcentagem que varia de monstro pra monstro. Então cada batalha é uma história que você vai precisar entender como resolver, algumas em especial vão exigir uma estratégia específica (e simbólica). Confesso que ao longo do jogo eu devo ter morrido mais de 50 vezes, o que mostra que o jogo não é nada fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças, basta ser mais atento ao que está te matando do que eu fui (Exceto alguns monstros que vieram direto das profundezas do Tártaro). Independente do sofrimento, é bem divertido a dinâmica de precisar ficar trocando de paradigmas (Estratagemas que você monta usando combinações de 3 entre as 6 classes) de acordo com a situação da batalha. Como há um pequeno delay para trocar os paradigmas, esses poucos segundos podem até serem fatais para você, mas há meios de se contornar isso se aproveitando da animação dos ataques. Há de se notar que é realmente um jogo de 2009 com uma ideia fora da caixa, visto que em alguns aspectos da jogabilidade ele é um tanto quanto travado, mas é um problema leve que eu honestamente consigo conviver sem muitos problemas.
O jogo chega a cerca de 35 horas de duração, o que é mais ou menos a média esperada para grande parte dos RPGs da época ou anteriores a ele. No entanto, ele tem um pós-game gigantesco que te permite se divertir bastante por muito tempo. FFXIII é um jogo bem divertido de se jogar, eu rejoguei numa boa, certamente aproveitei bem mais do que quando joguei a primeira vez (E quando for rejogar de novo, será com ele rodando perfeitinho, em um PC decente, e com as legendas em português que eu achei na internet). Na primeira vez eu joguei com áudio em inglês, e agora em japonês. Na minha opinião, a dublagem japonesa é superior a boa dublagem americana do jogo, mas o mais interessante mesmo foram os diálogos, já que como estava com as legendas em inglês, dava para comparar os diálogos das duas versões, e achei a japonesa um tanto melhor escrita.
E é isso, infelizmente não vou poder dedicar uma sessão especial para cada um dos personagens para evitar que essa review fique grande demais, mas sinto que poderia ter adentrado bem mais nas temáticas abordadas, tais como preconceito, opressão, corrupção política, a própria tentativa do governo de justificar um genocídio em prol de um "bem maior", a importância da empatia, saber lidar com a influência que você tem sobre os outros e muitas outras cartas que o jogo põe na mesa. Mas, como a ideia é fazer uma analise geral, eu vou me permitir não fazer disso um TCC. Final Fantasy XIII é um jogo que eu achava muito bom na primeira vez que joguei, e que agora eu o acho excelente. O jogo trás uma maturidade surpreendente, muito embora use de artifícios questionáveis no seu final (Que talvez sejam explicados nas sequências), e por isso exige uma certa maturidade para enxergar muitas das situações. Isso é meio chocante, visto que eu pude enxergar a obra com outros olhos agora em 2020, sendo que joguei a primeira vez em 2018. Mas é aquilo, estamos em constante mudança, sobretudo quando passamos por situações extremas, como é o caso dos personagens principais. É visível que, no final, alguns deles se tornam pessoas completamente diferentes quando comparados com suas versões do início do jogo, e isso torna a jornada muito proveitosa, pois ela te oferecerá diversos momentos catárticos, que muitas vezes necessitam de uma reflexão mais profunda para compreender sua dimensão. Tipo quando, em certo momento, você enfrenta um monstro chefe enquanto joga só com o Hope, e você pensa no contexto daquela situação, daquela batalha e do próprio personagem, você consegue visualizar, metaforicamente falando, a borboleta saindo do casulo. Então, é realmente um jogo que acerta na maior parte do que ele tenta fazer, é bastante recompensador e é um jogo que eu fiz questão de deixar registrado aqui pelo menos 1/3 de tudo que ele me proporcionou, tanto em termos de reflexão, quanto em termos de diversão. Está devidamente recomendado. Saraba Da!
[Review] Final Fantasy VII
Jogos sempre foram um forte concorrente contra os animes na minha infância, você pode até dizer que essa mídia teve maior prioridade para mim até o final da década passada. Graças a isso, eu colecionei um repertório de centenas de jogos jogados ao longo dos meus primeiros 18 anos de vida. Mesmo assim, embora conhecesse devido a sua enorme fama, eu nunca realmente cheguei a jogar o tão conhecido Final Fantasy VII até recentemente. Mas isso mudou, e por mais oportuno que seja o momento, decidi dedicar uma review ao jogo. Mais uma, dentre as milhares que já existem.
Eu nunca fui um fã da série de Final Fantasy, dá para contar nos dedos de uma das mãos quantos jogos da franquia eu joguei. Estou certo de que tanto o fato de eu não ser um fã da franquia quanto o fato de eu estar começando a jogá-los na atualidade afeta bastante minha perspectiva sobre essas obras, seja para o "bem", seja para o "mal". Mas poder ser mais neutro nas análises supostamente é algo bom, certo? Então vamos lá.
Eu comecei a jogar FFVII em 2018, mas a princípio não me engajei tanto com a história ou os personagens, o que resultou em eu parar de jogar após algumas longas horas de jogo. Há algum tempo, no entanto, eu decidi voltar a jogar e para minha surpresa as coisas foram ficando bem mais interessantes, o que me animou a terminar o jogo em duas semanas, em um total de 35 horas de jogo.
Apesar de ter começado com o pé esquerdo, FFVII começa em um cenário bastante chamativo para quem está acostumado com os clássicos mundos de fantasia que os RPGs costumam ter. Abrindo o jogo em um universo cyberpunk, nas favelas de Midgar, o game mostra ambição, principalmente na abordagem de temas, coisa que falarei sobre mais à frente. A princípio o jogo é bem convincente em mostrar lugares realmente pobres e/ou abandonados, não a toa Midgar é pra mim o lugar mais interessante e melhor pensado de FFVII.
A história começa com um conflito entre um grupo terrorista chamado AVALANCHE do qual o protagonista, Cloud, foi contratado como um mercenário para ajudar na missão de combater a super poderosa corporação Shinra. Toda a primeira parte do jogo, que soma um total de 5 ou 6 horas de duração, gira em torno desse conflito. Apesar dos cenários muito interessantes, a história e os personagens não conseguem acompanhar o mesmo nível de interesse, o que resultou no que falei no início desse parágrafo. Com o remake vindo aí na promessa de transformar essas 5~6 horas em 30~40, me pareceu que a Square Enix também se sentiu de forma similar. O que eu achei a parte mais fraca do jogo pode vir a ser um grande ótimo arco em 2020.
Mas o jogo se torna muito mais interessante após essa primeira parte, e ainda consegue reter os temas já apresentados nela. A história e o universo de FFVII se expandem bastante após a fase inicial, além de chegar no mundo aberto, que embora não seja uma exigência minha, é algo que muitos fãs de RPG acham essencial em seus jogos. Com um gameplay dinâmico e divertido, é fácil passar horas jogando. As mecânicas de FFVII são bem legais, o sistema de Materias foi algo que achei bastante criativo, além de ser relevante na trama. Poder equipar as magias/técnicas/invocações que você quiser nos personagens que você quiser torna o jogo bem mais controlável e agradável do que a clássica divisão por classes/raças. É interessante que você pode treinar seus personagens da maneira que achar melhor, como você só pode usar 3 personagens por vez e existe um total de 9 para pegar no jogo (2 opcionais), pra mim é sempre gratificante poder jogar com os que eu mais gosto, ao invés dos mais "úteis", e ainda assim conseguir zerar o jogo sem problemas. O dinamismo das batalhas, onde se você não agir rápido, o inimigo pode continuar te atacando, incentiva bastante o pensamento rápido, o que considero um ponto positivo até. Apesar da câmera do jogo atrapalhar às vezes dependendo do ângulo. Ainda assim, foram poucos casos onde isso ocorreu ao longo de incontáveis batalhas travadas.
Graças a um sistema de batalha bem divertido, eu me vi quase nunca fugindo de batalhas durante o jogo inteiro, o que certamente me ajudou bastante a longo prazo.
Nem toda a parte do gameplay foi agradável, no entanto. Ao longo da história, há várias instâncias onde você terá que passar por diferentes mini-games para prosseguir, e na grande maioria das vezes esses mini-games são mais irritantes do que divertidos. Como aconteceu com alguma frequência e era obrigatório, foi algo que me incomodou. Mas tirando essa exceção, não tenho mais o que reclamar do gameplay em si, FFVII cumpre seu papel não só como um jogo bom para gastar suas horas vagas até chegar ao fim da história, como também certamente é um jogo que qualquer fã conseguiria ficar rejogando sem realmente enjoar. Após 35 horas de jogo e tendo finalizado, embora a sensação de ter concluído uma história tenha me feito parar de jogar por aí, eu em nenhum momento cansei de jogar FFVII. Tanto que, como eu disse antes, eu não fugia das batalhas em nenhum momento, era sempre divertido, além do jogo se manter atualizado até o último instante, permitindo você continuar evoluindo suas Materias, melhorando seus equipamentos ou simplesmente mudando as bases e focos dos seus personagens.
Eu não sei o quanto a dificuldade é relevante para você em um jogo, principalmente RPG, mas eu achei FFVII relativamente fácil, poucos desafios reais. Como eu particularmente não ligo muito para isso, não me incomodou. Dificuldade pode variar de pessoa para pessoa, no entanto, e eu não sou nenhum mestre dos RPGs, então você pode achar mais fácil ou mais difícil que eu. Talvez não ter fugido das batalhas tenha sido uma das principais causas para facilitar minha vida também.
Voltando a história, ela não é algo surpreendente ou impressionante, nem nada do tipo. Porém, é muito bem executado e soube inserir a maior parte dos seus personagens na trama de maneira convincente, o que é bem importante. Não é tão bacana quando o jogo só coloca personagens sem relevância só por colocar, e é muito mais difícil torná-los memoráveis dessa forma. No decorrer da história, você verá pelo menos um mini-arco envolvendo cada um deles, com sua devida caracterização, criando um grupo de personagens consistentes e bem construídos. Infelizmente a maioria peca em desenvolvimento e/ou profundidade, com exceção do protagonista, Cloud, que tem uma das sequências mais legais do jogo, ocasionando não só em uma boa profundidade, como também um bom desenvolvimento. A Tifa, por estar diretamente envolvida, felizmente também leva um pouco disso. Mesmo assim, a base dos personagens é muito bem feita, a ponto que eu posso dizer que eu gostei bastante do cast de personagens, Vincent que é dos meus favoritos do jogo é um ótimo exemplo. Você descobre sobre a história dele, mas é só isso, não vai muito além (Ao menos não no FFVII), porém a caracterização fez dele um personagem memorável como alguns outros também são, como a Aerith.
Eu consegui, de alguma forma, vir jogar FFVII quase às cegas. Sabia muito pouco, e embora a história não tenha surpreendido, uma das principais temáticas abordadas sim, foi algo que não esperava e foi algo consistente do início ao fim do jogo.
O que me refiro, no caso, é sobre a preservação do meio ambiente, algo recorrente no jogo. A AVANLANCHE luta para preservar o planeta, afinal. Constantemente você vê referências ao estado do planeta através de diálogos com NPCs e no próprio desenrolar da história, como em uma cidade você ficar sabendo sobre a poluição das águas, ou em outro local receber um pedido de ajuda para defender uma ave com um ovo que está sendo alvo da corporação Shinra. Esse que é um tema tão interessante, é devidamente abordado no jogo, sendo um dos principais pontos da história no geral, que muito fala da tecnologia estar destruindo a natureza.
Mas, apesar dessa temática ser consistente ao longo da narrativa, alguns outros pontos importantes não são. Pior ainda, alguns são até deixados de lado. As ações da AVALANCHE, por exemplo, são relembradas em um momento só do jogo, como o fardo que precisam carregar, e depois é esquecido de vez. Os vilões deixam a desejar, o mais icônicos deles, Sephiroth, não sendo exceção a isso. Eu pessoalmente gostei muito dele, por sua existência ser um fator tão crucial em todo o jogo, mas por outro lado, achei que ele teve pouca presença de fato. Do jeito que as coisas foram feitas, acredito que era possível explorá-lo melhor.
Muito dos problemas de FFVII são consequências da época que o jogo foi lançado, tendo jogado outros RPGs dos anos 90, eles compartilham de problemas similares. Que na verdade são problemas hoje em dia, mas na época eram das coisas mais incríveis. Eu acho importante levar a época em consideração, a questão é que, como dito bem lá em cima, FFVII é um jogo ambicioso. Logo, muitos dos problemas citados acabam afetando a experiência. Claro, não vai ser igual para todo mundo, mas para mim, por exemplo, o jogo não impactou emocionalmente em nenhum momento, mesmo tentando em vários deles. Não ter conseguido me atingir emocionalmente não foi algo que eu considerasse um defeito per se, mas impediu a obra de ser mais do que ela já era.
Eu acho que a melhor forma de definir Final Fantasy VII, é a de um jogo que consegue executar bem a maioria das suas características, um jogo que é bom em todas as áreas, mas que não se sobressai em nenhuma delas. É um jogo muito bom, que não conseguiu ser mais que isso pelos problemas que vieram acorrentados em todas as suas qualidades. Foi a sensação que eu tive quando terminei, a de que faltou um passo a mais para chegar lá, mas que nunca foi dado. Mesmo a trilha sonora, composta pelo mestre Nobuo Uematsu, consegue ser muito boa, mas poucas faixas realmente chegaram a me marcar. Isso porque muitos dos jogos dessa época tiveram trilhas sonoras incríveis que eu lembrarei eternamente, então a expectativa era que o mesmo ocorresse aqui.
Se eu recomendo Final Fantasy VII? Com certeza. É um bom jogo. Bom gameplay, boa história, bons personagens, boa trilha sonora, mesmo os gráficos eu não achei ruins considerando a época. E no caso das minhas ressalvas não te incomodarem ou não concordar com elas, terá uma ótima experiência lhe aguardando. Então sim, caso ainda não tenha jogado FFVII, faça-o. Vale a pena. Saraba Da!
Nota Final: 7.0 / 10


