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[Review] Murasakiiro no Qualia - Filosofia + Física = Arte!
Quando falamos sobre obras sci-fi, há uma certa concepção específica que vem à nossa mente, que na verdade nada mais é que a concepção básica do gênero e os seus principais clichês e modelos. Quando falamos de Murasakiiro no Qualia, no entanto, o que recebemos é algo completamente fora da casinha. A light novel sci-fi e yuri de 2009 tem uma proposta bem específica em mente que não tem muito a ver com o que estamos acostumados a ver desse gênero. A parte sci-fi da obra, a ciência em si, em nenhum momento é o ponto principal da trama, mas sim um veículo usado para passar uma mensagem. O que pode significar um certo afastamento de quem é muito fã do gênero, mas também poderia significar um afastamento de quem não gosta das partes mais complicadas de sci-fis complexos. Uma ideia arriscada que talvez fosse um tiro no pé, mas bem... Digamos que valeu a pena o risco.
Antes de mais nada, Murasakiiro no Qualia é uma light novel, mas também tem uma adaptação em mangá. Por ser uma novel one-shot, ou seja, de volume único, sua adaptação em mangá pôde adaptar toda a obra sem problemas. Em 99% dos casos, eu trataria o original e a adaptação como coisas totalmente distintas, quase como se fossem obras diferentes. Isso independente se a adaptação é boa ou não, porque no fim das contas é uma perspectiva diferente de uma mesma obra sendo produzida em outra mídia. Porém, Murasakiiro no Qualia é um caso à parte, isso porque a dupla Hisamitsu Ueo, o(a) escritor(a) da novel e Shirou Tsunashima, o(a) ilustrador(a) da novel, foram quem fizeram também a adaptação em mangá de Murasakiiro no Qualia. Então temos um raro caso dos próprios criadores do original sendo também os criadores da adaptação, o que faz a adaptação ser uma leitura do original praticamente perfeita. E, vejam, não estou dizendo isso apenas pelos criadores terem total controle da adaptação, mas também pelo mangá aproveitar sua natureza visual para fazer algo além do que um livro conseguiria fazer só com palavras. Então ambas as versões são excelentes, com suas diferenças, mas com o mesmo espírito, inclusive pela arte da novel e do mangá vir da mesma pessoa. O que eu farei aqui é analisar a obra como um todo, novel e mangá inclusos. Vou citar o que tiver que citar de importante de diferença entre os dois, mas você pode ler o que você a mídia que se sentir mais confortável.
Dito isso, vamos à obra. Murasakiiro no Qualia é dividido em três atos, naquele estilo tradicional de roteiro. Dentro desses três atos, há dois arcos. O primeiro deles sendo o ato 1, o segundo sendo os atos 2 e 3. O ato 1, que é a introdução, é muito interessante e, ao mesmo tempo, nem tanto. A obra tem uma premissa exótica, onde conhecemos a protagonista, Manabu Hatou, ou Gaku, como foi apelidada e o seu cotidiano após conhecer a excêntrica Yukari Marii em um esbarrão no corredor da escola onde as duas acabaram se beijando acidentalmente (Já começa naquele pique!). A Yukari é uma menina super peculiar, pois afirma enxergar os outros como robôs. Não no sentido figurado, mas literalmente mesmo. Robôs, tipo mechas ou até personagens de Mega Man. Obviamente ninguém leva ela a sério, pois não só é algo surreal demais, mas também é algo impossível de se provar. O termo "Qualia" no título da obra não está ali à toa. Esse conceito da filosofia fala sobre a natureza subjetiva das nossas experiências pessoais dentro das nossas próprias perspectivas e como isso é algo simplesmente impossível de se transcrever ou compartilhar. Eu lembro de um exemplo de diálogo que vi num site que era tipo: "Descreva a cor da maçã" - "É vermelha" - "Vermelha como?" - "Vermelha, vermelha mesmo". Não dá para mostrar para outra pessoa como seus olhos veem as coisas, ou como sua mente te mostra o mundo, aquilo é absolutamente só seu. Dessa forma, a obra te impede de ter certeza de qualquer coisa nunca mostrando o mundo pela perspectiva da Yukari, mas alimentando a ideia de que talvez ver as pessoas como robôs não seja realmente só bobeira da Yukari.
Então existe um aspecto filosófico e reflexivo nessa introdução que torna aquilo muito interessante. Por outro lado, enquanto acompanhamos o cotidiano da Gaku, sobre seus hobbies, vida escolar e práticas, tal como ela estar sempre treinando o uso da naginata, temos uma obra de slice of life até que relativamente comum. Talvez você seja como eu e curta slice of life, consequentemente conseguindo se divertir ao longo desse primeiro arco. Mas talvez não seja lá sua praia e isso tire um pouco do seu interesse na obra. Porém, na reta final da introdução, as coisas mudam da água para o vinho muito rapidamente. Se você optar por ler o mangá, a obra vai soltar um spoiler logo na primeira página, para depois ir para o slice of life, talvez até por realmente acreditarem que dar aquele spoiler acabe servindo de combustível para manter os leitores interessados até chegar na "parte boa". Uma escolha que eu pessoalmente não curti tanto, porque se você for ler a novel, a reviravolta realmente vem do nada e consegue te impactar muito mais. Achei mais marcante dessa forma, embora entenda a escolha do(a) autor(a) nesse caso. O final da introdução é bem intenso e, de certa forma, confuso. Há uma cena em específico que talvez seja a única da obra inteira que não dê para explicar, apenas teorizar e tirar suas próprias conclusões.
Quando terminamos a introdução, a obra muda completamente. A condução da narrativa é convincente o suficiente para te deixar inseguro em relação a direção que a obra tomaria após os eventos finais do primeiro arco, de forma que mesmo que voltemos a vida escolar de antes, a adição de uma nova personagem ao cast só te deixa ainda mais desconfiado. De uma forma muito inteligente, o(a) autor(a) mexe com a nossa qualia, nossa perspectiva em relação a novel ou ao mangá, fazendo com que aquela ideia de antes se expanda para além da obra em si. O negócio é que chegamos no segundo arco, e esse é a cerne de Murasakiiro no Qualia. Foi aqui que a novel me ganhou. A obra começa a brincar ainda mais com uma mistura de conceitos científicos e conceitos filosóficos para temperar a narrativa de uma forma muito eficaz, mas também muitas vezes até metafórica. A maioria dos conceitos apresentados são explicados de forma até que bem didática, ao ponto de qualquer um poder entender a ideia geral, mas ter alguma familiaridade prévia com certeza ajudaria bastante. O uso da física quântica pode parecer um pouco assustador, a princípio, mas a complexidade da obra não é tal que não dê para entender se não souber sobre os conceitos abordados. A filosofia e a ciência existem na obra como um meio de passar uma mensagem. Cheguei a conhecer uns conceitos novos que nunca tinha ouvido falar, como Zumbi Filosófico ou o Princípio de Fermat.
O ponto é que a grande temática por trás da obra é algo muito mais mundano do que aparece, mas apresentada como um espetáculo tão exagerado que nos sentimos acompanhando uma grande epopeia lendária que te surpreende muito em cada esquina. Usando o mangá de exemplo, não é que o capítulo seguinte pode te surpreender, mas sim que dentro de um único capítulo, você pode ter 2-3 motivos para ficar boquiaberto. O fato da adaptação em mangá ser um tanto mais frenética no ritmo ajuda bastante, já que a novel é mais cadenciada e te dá bons intervalos entre um momento marcante e outro, o que é um ponto em favor do livro, na minha opinião. Em todo caso, a narrativa consegue alimentar a trama de uma forma que faz a obra ser instigante de um determinado ponto do segundo arco até o fim da história. Mesmo com uma quantidade bem alta de diálogos e narrações, tem pouca coisa em toda obra que está "sobrando", tudo parece ser importante para o que estamos presenciando. Principalmente porque muitos dos temas estão ali, filosofias sendo abordadas, o existencialismo, a própria psicologia de uma forma geral. A física em certo ponto acaba se misturando com tudo isso, porque o propósito final tanto da física quanto da filosofia é agregar na criação da arte.
E aí temos a protagonista, Gaku, que é o grande fator surpresa da novel/mangá. É uma personagem que passa por uma grande metamorfose ao longo de Qualia, e que também enriquece demais a trama e os temas abordados. A Yukari, assim como a maioria dos outros personagens da obra, tem suas peculiaridades e isso é deixado até que claro durante a introdução da obra. Já a Gaku é bem normal, o que é útil para uma personagem no papel de protagonista, mas ela também é bem humana e isso é importante para a obra como um todo, principalmente quando se trata do seu relacionamento com a Yukari. É ela ser humana que permite a obra se desenrolar do jeito que se desenrolou, e esse desenrolar por sua vez permitiu a personagem a ter um desenvolvimento fantástico. Colocando em uma balança, a obra encontrou um equilíbrio ideal entre a protagonista e a trama que fez com que Murasakiiro no Qualia seja narrativamente quase impecável. Claro que sua curta duração impede que outras personagens tenham tanto desenvolvimento, mas para o que a obra se propôs a fazer, não consigo pensar em muita coisa que poderiam mudar.
O mangá entrega spoilers no primeiro capítulo, tem um ritmo mais acelerado que pode atrapalhar na hora de digerir o conteúdo da obra e corta ou resume alguns pontos não tão importantes da novel, mas fora isso, é uma adaptação excelente. Mais do que isso, o mangá é visualmente muito, muito rico, coisa que a novel é impossibilitada de ser por natureza. Não digo isso me referindo ao nível da arte, mas sim como ela é apresentada, tem muitos quadros ou ideias no mangá que são geniais no que tange a narrativa visual. Tem momentos que me arrisco a dizer que são até melhores do que no original, por saber aproveitar o aspecto visual. Acho importante frisar isso porque a adaptação em mangá tem seus defeitos, mas é o que eu considero uma adaptação ideal de outra obra. Murasakiiro no Qualia tem um final ambíguo, embora satisfatório, mas o mangá dá um passo além e adiciona algumas páginas a mais de conteúdo que não existe na novel e que torna o final um pouco mais compreensível, sem realmente abandonar a ambiguidade do original. É uma adição que achei muito boa, e acho que poderia ter tido outras adições de conteúdo original, mas visto que a obra não era popular, é normal ter acabado só com três volumes.
Murasakiiro no Qualia é uma das obras mais surpreendentes que já consumi. Única e cheio de personalidade, foi uma experiência inesquecível que eu quis recomendar aqui. Ambos a novel e o mangá foram licenciados há algum tempo pela Seven Seas e serão oficialmente lançados em inglês no ocidente, a novel ainda esse ano e o mangá só no ano que vem (Em formato omnibus, volume único). Sendo uma viagem super memorável, essa foi uma experiência que me marcou enquanto novel, depois como mangá e, até agora, enquanto termino esse texto e revisito páginas e trechos da obra, ela me marca novamente. Mas, no fim das contas, toda essa minha experiência com a obra é a minha qualia, algo que vocês jamais entenderão por completo, mas espero que esse post ao menos te intrigue o suficiente para você querer ter sua própria experiência. Saraba Da!
Gakusen Toshi Asterisk - Light Novel 2
O que falta para as adaptações de Light Novels?
Como um grande apreciador de ambos light novels e animes, é duro ver como boa parte das adaptações acabam dando errado. Não é algo desastroso como é com as adaptações de visual novel, mas ainda assim boa parte das adaptações não conseguem sequer se destacar. As adaptações que se destacam, na maioria das vezes estão fazendo algo de diferente na sua produção em comparação as demais adaptações de LNs. Hoje quero comentar um pouco sobre a minha visão do assunto, onde está dando errado e o que poderia ser feito para melhorar. Antes, caso queira ler um pouco mais à fundo sobre light novels e web novels, tem um post desse tema aqui no blog: "Sou Nan Da! #06 - Novel, Light Novel e Web Novel"
É necessário dizer que muito dessa questão vai além do nosso gosto pessoal sobre o conteúdo das obras em si, então talvez eu cite como exemplo positivo uma obra que você ou eu não gostamos, mas que teve uma produção que buscou criar um material animado que fosse uma adaptação digna e por isso se destacou. O texto não é para discutir a qualidade das obras em si, mas sim qual o processo que tornou essas adaptações algo notável ou esquecível de um ponto de vista técnico.
Ritmo
Acredito que a adaptação por volume acabe sendo um pensamento contra produtivo para as obras, pois acaba sendo metódico demais. "São 12 episódios, então divide 3-4 episódios por volume e pronto", quando na verdade deveriam dedicar o número de episódios necessário para o conteúdo que o volume oferece, se precisar de 5 episódios, usa 5, se precisar de 6, usa 6. Mas aí entra um problema que falarei mais para frente. Além do ritmo, outro aspecto muito relevante, talvez o mais relevante é a apresentação.
Apresentação
A forma que a adaptação é apresentada muitas vezes deixa a desejar e isso tira um brilho que ela poderia vir a ter, independente do seu conteúdo. Por apresentação eu estou incluindo a direção, a animação, todo o aspecto artístico visual que a obra pode ter. São coisas que fazem muito a diferença e isso é visível em adaptações como a de KonoSuba, Re:Zero ou até Mushuku Tensei. Existe um grande capricho da staff desses animes que as fazem se destacar de outras obras do mesmo nicho. Adaptações como 86, que usam de simbolismos visuais que conversam com a narrativa da novel tornam essas adaptações obras próprias, que existem como algo além de uma propaganda do material original. Mahouka, por exemplo, é uma adaptação que conversa muito mais com quem leu a novel do que com quem está tendo seu primeiro contato com a obra através da animação. Boa parte das adaptações só tentam repassar o que está nos livros em forma animada e, somado ao problema de ritmo citado acima, acabam perdendo muita individualidade e se tornando uma experiência esquecível. Não há espaço para diretores ou animadores talentosos brilharem, monólogos importantes dos personagens e partes da narração contendo informações cruciais são cortados por não ser só jogar na tela e pronto. Os funcionários que pegam esses projetos certamente nem tem liberdade (Ou tempo... Provavelmente os dois) para fazer algo diferente. Você pode pegar Mahou Shoujo Ikusei Keikaku, que apesar de adaptar um único volume em 12 episódios, o anime além de não conseguir se destacar em nada, ainda consegue soar corrido. Por outro lado, poderia citar a série de Monogatari, mas aí seria chover no molhado.
Acredito que precisamos de mais liberdade criativa nas adaptações de light novels. Vejo bastante disso em adaptação de mangá, não sei afirmar se ali há, de fato, mais liberdade ou se é só uma consequência de se ter muito mais adaptações de mangá do que de qualquer outra mídia. Mas a média de acertos e erros certamente é bem mais negativa para as adaptações de LN. Apesar de nos últimos 2-3 anos estar surgindo mais adaptações de LN feitas de forma mais criativa e com maior investimento.
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Infelizmente não tenho muita saída para esse problema, uma vez que a indústria não se importa com a criatividade artística... Não se importa nem com as pessoas que ali trabalham, vide a vida precária dos animadores. Nesse sentido, estúdios que criam seus próprios biomas diferenciados, como a Kyoto Animation, acabam sendo vitais para termos um respiro de obras menos comerciais e mais artísticas. Adaptações como Violet Evergarden e Chuunibyou demo Koi ga Shitai! seguem o modelo que considero ideal:
- Adaptam um material curto, geralmente apenas 1 volume em 12 episódios.
- Apresentação única, onde seus profissionais talentosíssimos tem a liberdade até para moldar aquele material original para algo diferente na animação.
- Foco na arte, pois geralmente pegam novels que o próprio estúdio seleciona a dedo e aí podem trabalhar a adaptação da forma que preferirem.
Infelizmente perdemos muitos talentos raros no ataque incendiário que o estúdio sofreu há 2 anos e a indústria pouco incentiva os jovens a seguirem esse ramo de trabalho, mas mais estúdios podiam seguir o exemplo da Kyoto Animation.
No mais, a situação das adaptações de light novels me parece estar melhorando, mesmo que lentamente. Tenho notado que mais animes tem ganhado segunda temporada, o que daria mais espaço para as obras se desenvolverem, já que 12 episódios é muito pouco para uma longa história como costuma ser o caso das obras adaptadas. Torço para que as novels se tornem mais populares, pois é o único jeito de convencer a indústria a investir mais nas suas adaptações. Enquanto isso, o que dá para fazer é um texto como esse explicando onde essas adaptações costumam dar errado e porque hoje em dia eu já não recomendo uma adaptação ainda não lançada de uma light novel que eu gosto, já que só após começar a lançar que você vai descobrir se a adaptação é boa ou não. Pior do que me decepcionar, é decepcionar os outros haha. Saraba Da!
Majo no Tabitabi - Durante a Jornada: O Conto de Dois Homens Que Disputavam Por uma Mulher (Volume 1: Capítulo 8)
Capítulo 8 - O Conto de Dois Homens Que Disputavam Por uma Mulher
Parte 1
O cair da chuva conduziu a fragrância das flores a flutuar através da floresta. A grama e as árvores brilhavam na luz solar filtrada através da marquise. Uma amável garota voava por ali, em cima de uma vassoura atravessando o único caminho para o seu destino.
Na altura do seu peito estava um broche com formato de estrela. Do seu chapéu pontudo, que ela mantinha no lugar diligentemente com uma mão enquanto voava, até o seu manto negro que cobria seu corpo, ela sem dúvidas era a imagem de uma bruxa. Mas afinal, quem poderia ser ela?
Exato. Ela sou eu.
Eu estava voando na minha vassoura, me dirigindo para o país mais próximo do que eu sai há alguns dias--aquele dividido entre culturas Orientais e Ocidentais. Segundo o que eu ouvi, o país adiante era bem, bem comum. Apenas um lugar normal cheio de pessoas que eram levemente mais musculares que a média. Exatamente o que é normal sobre isso é outra questão.
Bem, se eles forem minimamente parecidos com um certo indivíduo que eu conheci algum tempo atrás cujo os músculos haviam substituído seu cérebro, eu suponho que eles vivam bem felizes, mas... Eu provavelmente irei ficar apenas um dia lá e então irei embora.
Tais pensamentos vagaram pela minha mente enquanto eu observava o cenário passando rapidamente.
Indo direto ao ponto, eu não tinha nada melhor para fazer. Por isso que minha atenção foi chamada quando eu ouvi barulhos distantes na floresta.
"Certo, vamos revisar as regras mais uma vez. Nós dois iremos dar uma volta através da trilha da floresta, a primeira pessoa a voltar para esse ponto terá o direito de ser o namorado dela. Confirma?"
"Si-sim. Sem problemas."
"...Sem trapaças, certo?"
"O-obviamente. E-Eu jamais faria algo assim."
"...Tenho minhas dúvidas..."
Um dos homens tinha uma voz alegre e energética, enquanto o outro tinha uma pesada e abafada. Parece que eles estão apostando corrida. Pode ser interessante. Eu pensei, quando então veio outra voz.
"Huh? Você quer dizer que eu tenho que esperar aqui sozinha? Isso parece entediaaaante!"
A voz extra-dócil de uma jovem mulher ecoou claramente através do ar, me pegando de surpresa. Meu foco se desviou dos meus próprios pensamentos para o mundo exterior, e eu fui surpreendida novamente quando me peguei fazendo contato visual com ela.
"Bem, hoje é meu dia de sorte!" murmurou a garota fofa com cabelos negros.
...Ugh.
Parte 2
Me parecia errado voar passando por ela após fazer contato visual, então eu reduzi a velocidade. Infelizmente, esse foi meu primeiro erro. No que eu me aproximei da garota de cabelos pretos, ela me agarrou e me puxou para fora da minha vassoura.
"Kyah! Tão bonita! Oh, esse broche é algo que só bruxas possuem, certo? Uau! Isso significa que você é uma bruxa, certo?"
"Uhm, sim..."
"Incrível! Você é tão bonita, mas é uma bruxa também?! Isso é tão legal!"
"Uh, obrigada..."
"Então você pode usar magia, certo? Digo, você estava agora mesmo voando em uma vassoura! Uau!"
"É, óbvio..."
"A propósito, você tem um momento, tipo, agora?"
"Não, eu..."
"Uhuuu! Agora eu tenho alguém para me fazer companhia!"
"Err..." Só um segundo! Escute o que eu estou dizendo!
A garota praticamente me arrastou até onde os dois caras estavam, isso enquanto me chamava de "fofa" e dizia "uau" repetidamente. Os dois caras olharam para mim de cima a baixo.
"Você irá esperar com uma bruxa, huh? Bom, nesse caso acho que não precisamos nos preocupar com você ser atacada por um urso ou algo do tipo. Bom, muito bom," disse o belo homem.
"É-É. É um alívio. Ufa," o homem gordo disse, com respiração pesada.
......
Eu cochichei para a garota próxima a mim, "O que raios está acontecendo aqui, exatamente?"
"Como assim?" ela perguntou, confusa. "Desculpa, eu não expliquei ainda, não é? Veja bem, esses dois estão disputando para ficar comigo."
Não, esse tanto eu já entendi. Eu conseguia ouvir vocês enquanto eu estava voando. Não é isso que eu estou perguntando.
"Esses dois estão disputando para ficar contigo, é isso mesmo?" Eu falei em um tom de voz bem baixo para que os dois homens nãos me escutassem.
"Sim...?" Eu pude ouvir o tom de confusão na sua voz: "Isso é estranho?"
Sentindo uma súbita e muito complicada espiral de emoções, eu tomei um segundo para olhar para os dois homens. O homem que bem falava tinha um grande sorriso tão radiante, que até seus dentes brilhavam. E do lado desse homem imaculado, o homem gordo estava encharcado de suor. Ele parecia feder. Uma real obra de arte.
Apesar do óbvio, enorme abismo entre a aparência externa dos dois, a garota estava fazendo-os competir um contra o outro. Ela é idiota? Não sei o que ela está pensando. Mas talvez o homem gordo tenha algum tipo de talento escondido. Ou talvez o cara eloquente tenha uma personalidade bem ruim?
......
Inevitavelmente, meu interesse subiu. "Entendo, entendo. Pois bem, eu assumirei a responsabilidade de protegê-la."
Não importa o que estava acontecendo, eu era parte daquilo agora.
"Preparar, vão!"
Quando eu bati palma, os dois começaram a correr ao mesmo tempo.
"Raaaah! O coração dela é meu!" Senhor Perfeito começou de forma entusiasmada.
"Nghm fuu...hah, hah." Senhor Porquinho ficou exausto no momento em que começaram a correr.
Huh? Que estranho. Eu esperava que o Senhor Porquinho fosse liberar seu incrível poder oculto nesse momento.
Após os dois desaparecerem completamente, eu me virei para questionar a garota. "Por que você está fazendo eles competirem?"
"Hmm?" ela perguntou em uma voz abafada enquanto tomava um cuidadoso gole de água. Ela apontou para a garrafa d'água. "Quem você pensa que foi buscar essa água para mim?"
"Não foi você mesma que pegou?"
Ela balançou a cabeça. "Gordinho pegou isso para mim. Ele não cuida da sua aparência, mas é atento as pequenas coisas, entende?"
"Gordinho?" Ela certamente se refere ao Senhor Porquinho. Esse é um apelido...bem direto. Não está errada, no entanto.
"Oh, a propósito, tem uma para você também."
"...Por que tem uma para mim?" Eu estava confusa. Eu acabei de chegar aqui.
"Ele me passou ela logo antes da corrida começar. Me parece que ele trouxe uma reserva, então eu estou te dando." Ela empurrou a garrafa nas minhas mãos.
Eu não estou com muita sede, mas vou aceitar de qualquer forma. A água dentro da garrafa brilhava, refletindo a luz solar. Mas agora eu entendo. Ele certamente é atentivo. Quem poderia imaginar que ele teria uma garrafa d'água para mim também?
"Então você ficou encantada pelo coração e alma do rapaz gordo, e a aparência e comportamento do cara que fala bem, é isso? Que problema bacana para se ter." Não sinto inveja, entretanto.
A garota deu uma risada seca. "Eu realmente não gosto do Gordinho de nenhuma forma, apesar disso, sabe?" Ela facilmente desmentiu o que eu havia assumido.
...Huh? "Do que você está falando?"
Eu tinha certeza que ela estava colocando eles um contra o outro porque ela não conseguia decidir.
"Ahr." A garota terminou de beber toda a água da sua garrafa, e então me respondeu alegremente. "Eu só estava brincando com o Gordinho porque eu não tinha nada melhor para fazer."
"......"
"Mas, ele é inútil. Ele realmente acha que uma pequena garrafa d'água seria o bastante? Eu ainda estou com sede." Ela atirou a garrafa vazia na floresta.
Okay, eu não estive sendo necessariamente gentil com o grande homem nos meus próprios monólogos internos, e eu não estava particularmente orgulhosa disso, mas naquele exato momento, um único desejo preencheu meu coração. Eu enviei minhas preces aos universo.
Permita essa mulher receber punição divina.
Parte 3
E pior que foi exatamente isso que aconteceu.
Aconteceu vários minutos após a garota ter jogado a garrafa vazia na floresta. Eu percebi ela subitamente bocejando de forma dramática, e então ela foi apenas se inclinando, até ela cair para trás com um *tum*.
Felizmente o gramado serviu como almofada, então ela não bateu a cabeça com muita força.
Eu a repreendi internamente, então comecei a me desesperar e me perguntar se ela estava morta por ela ter caído tão de repente. Mas quando eu me aproximei, eu podia identificar o distinto som de um ronco.
E foi assim que eu comecei a relaxar, com a cabeça dessa garota no meu colo na sombra das árvores.
"Zzz... Músculos, tantos músculos..."
A atitude dessa garota é terrível, e a forma que ela dorme também. Que visões do inferno ela deve estar vendo para não ter nada além de músculos?
Eu gastei vários minutos encarando seu rosto babado e ouvindo as asneiras que ela dizia enquanto dormia. Então uma única silhueta apareceu na distância. Quem poderia ser? Bem, não tem porque me perguntar, o primeiro a retornar obviamente seria...
".....Ah." Eu pisquei algumas vezes e olhei para a figura que corria na minha direção. Mas não importava quantas vezes eu checava, a pessoa se aproximando da gente era ele.
Era o Senhor Porquinho.
Era o Gordinho.
...Como?
Ofegante e bufando, coberto de suor e oleoso, ele finalmente chegou com um sorriso triunfante. "Heh, hah... Eu consegui, eu ve-venci... heh..."
Ah, eu fui idiota em sentir simpatia por ele mais cedo. Enquanto ele olhava ao redor e confirmava que o Senhor Perfeito ainda não havia retornado, sua expressão era extremamente revoltante.
A frase fisicamente impossível veio à minha mente. É, isso é, de fato, fisicamente impossível.
Mas onde estava o Senhor Perfeito? Meu olhar seguiu os pingos de suor do Senhor Porquinho e me levou a resposta uma vez que eu vi uma figura se aproximando com muita velocidade.
Era o Senhor Perfeito.
Quando ele viu o Senhor Porquinho o desdenhando, Senhor Perfeito caiu em lágrimas. Se fosse ele sozinho, ou se tivesse uma bela garota esperando por ele no destino, a visão de um homem de coração mole correndo aos prantos poderia ter rendido uma bela cena, mas já que a pessoa na frente dele era um homem rechonchudo, a cena era só extremamente surreal.
O homem alcançou a linha de chegada e imediatamente começou seus lamentos.
"D-Droga... Por que, por quê...?! Por que eu tirei um cochilo no meio da corrida?!"
Um cochilo? Você é idiota?
Isso me lembrou o conto de fadas da lebre e a tartaruga. Se bem me lembro, a forma que a história acabou era com a lebre descuidada tirando um cochilo, e a tartaruga que continuou dando o seu melhor acabou vencendo no fim. Era uma excitante história que deixava o leitor frustrado e amaldiçoando a tartaruga.
Seria isso uma repetição daquela fábula?
"Você se descuidou?"
Limpando o brilho do suor e as lágrimas que cobriam seu rosto, Senhor Perfeito respondeu, "Não... Eu fiquei com sono no meio da corrida e desmaiei, e quando eu acordei, eu estava dormindo bem ali." Ele arriou seus ombros.
...Hmm. É o que eu estou pensando que é? Eu me perguntei.
Senhor Perfeito deve estar pensando a mesma coisa. Ele apontou o dedo na direção do Senhor Porquinho e gritou, "Você drogou aquela água para me deixar sonolento, não foi?!"
Tá aí, bem como imaginei. De fato, havia mais uma pessoa que bebeu a água que ele providenciou, e ela estava dormindo tranquilamente no meu colo.
Senhor Porquinho deu de ombros para o Senhor Perfeito em uma dramática demonstração de desprezo.
"Heh, hah... Você tem alguma prova?" Por alguma razão, era incrivelmente irritante para mim que ele tenha decidido virar um tagarela após a corrida ter terminado.
Mas me parece que ele cavou sua própria cova. Tomando cuidado para não acordá-la, eu lentamente tirei a cabeça da bela adormecida do meu colo e me levantei.
"Se você quer uma prova, aqui está---" Assim que as palavras saíram da minha boca e eu mostrei a garrafa para ele, eu percebi que já estava vazia. Obviamente, não havia provas ali.
Eu tinha tido um mal pressentimento sobre aquilo, então eu despejei todo o conteúdo.
Que erro crasso.
Enquanto eu estava de pé e sem jeito, o humor do Senhor Porquinho pareceu melhorar ainda mais. "Vê?! Você não tem absolutamente nenhuma prova! Certo, ela é minha! Hee-hee!"
"...Ugh."
"...Ugh."
Infelizmente, não havia nenhuma maneira de provar que ele tinha feito algo de errado---Espere, não. Não havia mais alguma coisa?
Eu coloquei a garrafa no chão e peguei a garota adormecida. "Espere um momento. Aqui está a prova."
"Hee.. Seja sensível. Certamente ela só ficou cansada e resolveu tirar um cochilo."
"Não, ela caiu no sono após beber a água que você deu para ela."
"Onde estão as provas? Isso é tudo que tem a dizer? Estou esperando."
"....."
Ooh, ele me irrita demais...!
De certo, a garota era uma pessoa terrível por ficar brincando com o Senhor Porquinho, mas ele conseguiu superá-la. Ele era genuinamente ruim. Eu deveria destruí-lo usando magia.
...Oh, já até sei o que fazer.
Eu posso ter perdido a calma, mas o Senhor Porquinho era enlouquecedor, e também, foi ele que começou.
Eu estava furiosa.
Eu saquei minha varinha--
"Espere um momento."
Havia uma voz vinda de cima---uma que talvez eu possa ou não ter ouvido antes.
Quando eu olhei para cima, o gigante do outro dia estava de pé ali, imponente. Atrás dele havia dois homens identicos que se diferenciavam apenas pela cor das suas roupas.
Oh? O que temos aqui?
Dessa vez (e só dessa vez) eu realmente senti que eles eram meus salvadores.
Parte 4
"Olá novamente." Eu me curvei rapidamente para os três que deram as graças para nós, e o grande homem flexionou seus músculos faciais... No caso, ele sorriu.
"Já faz algum tempo, senhorita bruxa."
"De certo faz, Homem-Músculo."
Era o homem incrivelmente musculoso que eu havia encontrado vários dias atrás. Eu não sabia o seu nome real, mas eu não acho que ele se importe. Ele era uma pessoa estranha da qual o coração pulava em excitação no mínimo citar da palavra músculo.
Ele estufou o peito. "Mm, exatamente. Eu sou um homem musculoso."
Aparentemente seu crânio ainda está repleto de músculo, também.
"É bom ver vocês dois novamente também." Eu também me curvei para os dois homens de pé em ambos os lados do Homem-Músculo.
"Bom te ver."
"É, olá novamente."
Parece que ambos ganharam mais massa muscular. Eles tentaram me enganar, mas vendo suas formas musculosas, eu senti um pouco de pena deles.
"Irmão, sua pele parece um pouco bronzeada."
"Eu posso dizer o mesmo de você."
"Ha-ha-ha."
"Ha-ha-ha."
Eh, tô fora.
Eles pareciam estar vivendo uma vida de exercícios. Eu ignorei os dois enquanto começavam a mergulhar em conversas triviais e calmamente expliquei os detalhes da situação para o Homem-Músculo.
O Homem-Músculo estava enraivecido. "Oh-ho, então esse gordo fedido aí é o culpado, não é? Hein?"
"Ne-nem pensar! E-Eu não fiz nada! Eu venci de maneira justa!"
"Não minta." Homem-Músculo agarrou ele pela gola.
"Reee!" Senhor Porquinho soltou um grunhido que mais parecia um guincho. "E-Eu não estou mentindo!"
"Bem, suponho que terei que questioná-lo até que eu acredite na sua história, então."
"Pa-pare com isso! Vocês estão sendo injustos! Vocês acham que um cara feio como eu não pode ter uma namorada, e vocês estão rindo de mim nas suas mentes! Mas eu me esforcei muito, e eu venci! Essa é a verdade! Por que vocês não podem acreditar em mim?!" Gotículas de saliva voaram da sua boca enquanto ele falava.
Aquilo pareceu irritar o Homem-Músculo ainda mais, e acredite em mim, eu percebi.
Nesse ritmo, o covarde Senhor Porquinho estava pedindo por uma execução em praça pública.
Bom, por mim tudo bem.
"....Mm." Eu estava assistindo distraidamente o Homem-Músculo içar o Senhor Porquinho no ar quando ouvi uma voz atrás de mim. Talvez seja porque o cara repulsivo estava fazendo escândalo, ou talvez era por ela ter finalmente dormido o bastante, mas a garota abriu os olhos no momento perfeito.
"...Vocês são muito barulhentos." Ajeitando seus cabelos pretos levemente bagunçados, ela preguiçosamente se levantou, observou seus arredores e então perguntou: "Oh, alguém venceu?"
Houve um pequeno silêncio quando ninguém respondeu. Eventualmente, eu contei para ela sobre os resultados. "Ah sim, Gordinho venceu."
A resposta da garota foi simples. Após encarar os céus por um momento, ela respondeu com leveza, "Oh, okay. Eu não irei sair com ele, no entanto." Franca, e impiedosa.
Todos congelaram. Gordinho parou e ficou imóvel como um peixe morto; Senhor Perfeito ficou todo envergonhado; os dois irmãos estavam, como sempre, tendo uma vívida discussão sobre exercícios; e só um dos homens respondeu ela.
Foi o Homem-Músculo.
"O que você está fazendo aqui?"
...Huh?
"Oh, irmão. O que te trás aqui?"
...Irmão?
"Você não tinha sido sequestrada por um grupo de homens musculosos?"
"Ah, aqueles eram meus namorados. Eu estava namorando todos eles ao mesmo tempo."
O que você quer dizer com namorados? Plural?
"Entendo. E agora?"
"Eu estava procurando por um novo namorado."
"Conseguiu encontrar um?"
"Sem chance. Todos os homens tem músculos tão fracos," ela disse, olhando para o Senhor Perfeito.
Eu bati de leve no ombro do Senhor Perfeito. Seu rosto havia perdido toda a cor, e ele ainda estava chorando.
"Err, essa é a irmã mais nova que você falou sobre?" Eu perguntei, só para ter certeza.
Homem-Músculo confirmou. "Uhum, essa é ela."
"....."
O que diabos?
Parte 5
Tendo finalmente achado sua irmã mais nova, Homem-Músculo voltou para sua cidade natal com sua irmã e o novo namorado dela, onde todos viveram felizes para sempre.
Huh? Quem era o novo namorado dela, você pergunta? Oras, era o Senhor Perfeito.
"Po-por favor, espere! Eu estive trabalhando duro para ganhar a aprovação do seu irmão, você não pode deixar eu ir com você?" Limpando as lágrimas enquanto dava um passo adiante, sua figura galante era uma visão a se apreciar. Não importa o que ele fazia, era uma imagem perfeita.
Os irmãos músculo olharam um para o outro.
"Hmm, então você quer construir seus músculos. Entendo." Homem-Músculo balançou a cabeça ao entender, então bocejou desinteressado e deixou sua irmã tomar a decisão final.
O que raios ele vê nessa garota? Bem, dizem que o amor é cego, então tenho certeza que ele eventualmente irá abrir os olhos e seu coração irá esfriar. Embora até isso acontecer, ele provavelmente estará completamente amarrado por músculos.
Eu acenei enquanto os três caminhavam para o horizonte, então ouvi um gemido estranho atrás de mim. Oh, eu esqueci desse outro cara.
Quando eu me virei, Senhor Porquinho estava rolando de forma esquisita no chão.
Não sinto a menor vontade de consolá-lo, então só vou deixar ele pra lá.
"Ei, irmão, o que você acha daquele porco?"
"Sem músculos o bastante, ei--ah, ei, espere um minuto. Nosso mestre dos músculos não está aqui."
"Você está certo. Ele não está aqui, está?"
"Não me diga que ele nos deixou aqui?"
"O que faremos?"
"Ahhh!"
Os dois irmãos mágicos finalmente terminaram sua discussão sobre exercícios. Eles olharam ao redor confusos com o que havia acontecido, e então eu generosamente expliquei para eles. Blá, blá, blá.
"O que?! Nesse caso, nosso mestre dos músculos já completou sua jornada."
"O que isso significa para nós? Essa é realmente uma situação grave."
"Bem, é assim que as coisas são," eu disse. "De forma milagrosa, ele alcançou seu grande objetivo." Estou certa de que aqueles três irão voltar para sua terra natal e viver uma vida cercada de músculos. Mas isso não é da minha conta, não é mesmo?
"Agora que vocês foram libertados da tutela do Homem-Músculo, vocês dois pretendem voltar aos tours como mágicos?"
Os dois pareciam confusos com a minha sugestão.
"Mágicos?"
"Mágicos?"
Não me diga que... "Quando eu conheci vocês dois, vocês eram mágicos, não eram? Vocês esqueceram tudo sobre como vocês costumavam enganar as pessoas para pegar o dinheiro delas?"
"...Ah."
"...Ah."
"Realmente... Nós éramos mágicos..."
"Gah... Eu havia esquecido porque nossas vidas giravam em torno de fazer exercícios há muito tempo..."
Músculos são uma força a ser reconhecida. Bem, os dois passaram por muita coisa.
Eles se lembraram quem eles costumavam ser, e o trio seguiu em frente como uma trupe de ilusionistas viajantes. E então todos viveram felizes para sempre.
......
Certo. Como você deve ter imaginado, o terceiro homem era o Senhor Porquinho.
"Ei você, por que não vem conosco?"
"É, você está na mesma onda que nós. Você definitivamente irá ser um bom mágico."
Ambos colocaram uma mão nos ombros arriados do Senhor Porquinho e fizeram a sugestão bem gentilmente. Da sua parte, Senhor Porquinho só grunhiu, coberto de catarro e sem uma ideia sequer sobre o que estava acontecendo. Que desagradável.
Mas os dois irmãos pareciam entender.
"Ah, está tudo bem. Não se preocupe. Nós iremos te ensinar tudo que você precisa saber."
"No momento em que bati o olho em você, eu tive certeza que você tinha um talento natural. Venha conosco."
Finalmente, Senhor Porquinho balançou a cabeça positivamente.
E então, o trio de mágicos começou a sua jornada. Chamando a si mesmo de Irmãos e o Barril para evitar o problema de combinar os seus nomes, esses homens em breve construiriam uma guilda de circos que iria circular todo o globo.
Ou talvez não. Eu nem sei o que aconteceu com eles.
Afinal, essa história não faz parte da minha.
Majo no Tabitabi - Como o anime pode vir a ser bom?
No momento em que escrevo isto, falta apenas um dia para a estreia do anime de Majo no Tabitabi, adaptação de uma light novel de mesmo nome, que também é uma das minhas favoritas. Já é de praxe da minha parte refletir sobre como hipotéticas adaptações das minhas obras favoritas podem vir a serem boas, como é o caso aqui, e eu achei interessante a ideia de compartilhar minha visão de como fazer uma boa adaptação dos prováveis 3 primeiros livros de Majo no Tabitabi nesses prováveis 12 episódios que o anime terá.
Quem já me conhece bem sabe que não tenho lá uma opinião muito favorável às adaptações de light novels em anime, acho que quase sempre ou é muito corrido ou muito mal feito. Porém, a narrativa de Majo no Tabitabi oferece uma oportunidade de ouro para fazerem uma adaptação atraente para todo mundo que curte esse tipo de storytelling. Me refiro ao estilo episódico que a novel tem, onde cada capítulo conta uma história, que geralmente não tem ligação umas com as outras, salvo exceções. O modelo episódico facilita muito para a staff, que pode simplesmente adaptar um capítulo por episódio e já terá meio caminho andado para obter sucesso nesse trabalho. A grande questão é que, com a revelação da participação de uma certa personagem no anime, dá-se a entender que, como eu disse antes, eles irão provavelmente ir até o volume 3. O final do volume 3 é ideal para fechar a adaptação em anime, então, de certa forma, é compreensível essa escolha. Acredito que a coisa mais inteligente que a staff poderia fazer é escolher quais histórias adaptar, separar 11 capítulos entre os 3 livros (O último seria o capítulo final do volume 3) e colocá-los no anime. Imagino nessa ideia a melhor forma que o anime pode ter sob essas circunstâncias. Tentar adaptar tudo seria um gigantesco tiro no pé, e tentar alterar a narrativa da obra para fazer algo mais linear seria um tiro no peito. Torço demais para que essas duas alternativas nem existam na mente dos envolvidos no projeto.
Outra questão que provavelmente será tão pesada quanto a que mencionei acima é como a ideia de Majo no Tabitabi é executada. Para quem desconhece a obra, Majo no Tabitabi é uma coleção de histórias, contos sobre lugares, pessoas e, às vezes, até objetos. Cada capítulo conta uma história diferente, sem realmente seguir uma grande ideia por trás, como geralmente é feito relacionando as tramas ao personagem principal e/ou o leitor em si, casos esses de Violet Evergarden ou Kino no Tabi, por exemplo. Esse modelo já é bem conhecido para qualquer um familiarizado com literatura, mas Majo no Tabitabi o executa de uma maneira peculiar: As histórias não seguem um tom pré-determinado, você pode e vai ir de uma comédia para um drama de um capítulo para o outro. Isso é algo que faz a novel ser especial para mim, pois assim como a vida real, experienciar uma situação cômica e uma situação trágica é muito fácil quando você está viajando. Se você for de uma cidade grande para uma favela, poderá observar dois universos completamente distintos. Chamo atenção para esse ponto pois será necessário um capricho extra na direção, porque vai precisar de alguém eficaz na comédia, mas também vai precisar de alguém eficaz no drama, no sombrio, no relaxante e etc. Isso acaba se tornando uma missão bem complicada, principalmente porque certos capítulos são absolutamente pontuais na sua execução, onde um deslize é o bastante para tirar todo o impacto deles. Espero muito que dê tudo certo, apesar dos pesares.
Por fim, temos a protagonista, Elaina. A Elaina é uma personagem incrível, sobretudo para um estilo narrativo como o de Majo no Tabitabi. A presença dela faz total diferença no funcionamento das histórias, devido a sua personalidade, suas convicções e seus monólogos, três aspectos que podem ser mal executados na adaptação muito pelo fato dela não ser uma personagem de valores morais inquestionáveis. Tornar ela mais "comum" no anime para agradar um público mais amplo pode ser uma opção para a staff, mas seria um erro terrível. Além do mais, é sabido que não costumam se dar ao trabalho de pensar em uma forma de incluir os monólogos, que costumam ser importantes, dos protagonistas de light novels nas adaptações em anime, quase sempre optam por cortar. Espero que não seja o caso com Majo no Tabitabi. ainda mais por eu acreditar que será mais viável inclui-los em uma obra nesse estilo, em comparação à outras.
No mais, até tenho boas expectativas de que o anime dê certo, tanto que estava com toda essa reflexão na cabeça e achei válido transformá-la em um texto para postar aqui no blog, após ficar 2 meses sem PC. Voltei a tempo para me preparar e, independente do que vá acontecer nos prováveis próximos 3 meses, tenho sempre em mente que a novel é a novel e o anime é o anime, então já vou de mente aberta querendo gostar do que virá dessa adaptação, e fica a torcida para que venha um bom anime. Saraba Da!
OBS: Devido aos imprevistos, não pude finalizar o volume 1 antes do anime estrear, mas caso queira dar uma olhada na primeira metade do primeiro livro, você pode encontrá-la traduzida aqui!
Majo no Tabitabi - Antes da Competição Começar (Volume 1: Capítulo 7)
Parte 1
De manhã cedo, eu cheguei em um certo país. Era um país que eu encontrei por um acaso, enquanto voava na vassoura, então eu não tinha a menor ideia sobre que tipo de país era.
Era desnecessário para uma vila tão pequena que não tinha nem portão, mas normalmente quando você entra em um país que tem posse da terra, quase sempre há uma inspeção feita pelos guardas do portão.
Dito isso, exceto em casos especiais, eles apenas perguntam questões gerais básicas.
"Quem é você?"
"Elaina."
"País de origem?"
"É conhecido como o pacífico país de Robetta."
"Razões para entrar?"
"Turismo."
"Duração da estadia?"
"Provavelmente em torno de três dias."
Normalmente, as questões acabariam aí, se fosse um país que exigisse pedágio, você pagaria o dinheiro e o guarda do portão saíria do caminho dizendo "Nesse caso, por favor, fique à vontade."
"Para o café da manhã, você está na facção do pão? Ou na facção do arroz?"
Parecia que o questionamento ainda estava em progresso. E era uma questão bem vaga.
"...Oi?" Eu franzi a testa e peguntei novamente.
O guarda do portão respondeu sem mudar sua expressão nem um pouco, "De novo, para o café da manhã, você está na facção do pão? Ou na facção do arroz? É uma informação necessária quando se entra no país, então por favor, responda honestamente."
Existem competições de comida acontecendo nesse país?
Mas, se é uma necessidade, responderei honestamente. Embora eu ache que é uma pergunta um pouco imprópria para os procedimentos formais padrões.
"Eu não estou em nenhuma das facções. Eu sou uma viajante, logo, eu mudo a facção para estar de acordo com a cultura do país."
Eu não consigo comer nada além de pão! -- Você não pode falar isso em um país com uma cultura voltada para o arroz, certo? O mesmo vale para o inverso. Então, eu decidi manter uma postura neutra.
"Entendo... Isso é incomum," O guarda do portão alisou o queixo e disse.
"Hmm, entendido. Então, vamos colocar em ambas as facções como sua decisão."
Após isso, o guarda do portão saiu do caminho e disse:
"Fique à vontade, Bruxa-sama."
Eu me curvei para o guarda e passei pelo portão.
Parte 2
Eu imediatamente entendi a razão daquela pergunta estranha.
Pelo que parece esse era um país onde duas culturas estavam misturadas.
Havia um canal gigante perto do portão de entrada. E aos lados desse canal, haviam casas orientais alinhadas no lado esquerdo do canal e ocidentais alinhadas no lado direito.
Mais ainda, havia duas ruas diante do portão. Na direita, "Distrito Oriental: Pessoas da facção do arroz, por aqui!" e no lado oposto, "Distrito Ocidental: Pessoas da facção do pão, por aqui!" estava escrito.
Parece que o país está dividido entre as facções do arroz e do pão internamente.
"...Hmm."
Eu hesitei. Eu realmente não tenho preferências.
Mas, pensando sobre isso, não seria essa a primeira vez caminhando em uma paisagem urbana oriental? É sempre no estilo ocidental.
Então, eu decidi.
Eu me virei para a direita.
A rua ali era composta de pedras retangulares bem organizadas. Olhando de perto, havia casas de madeira formais alinhadas em uma fileira. O Palácio Real era visível mais à frente. Parecia estar bem no centro do canal, então eu presumi que era o centro do país dividido.
A rua levando ao Palácio Real tinha uma ponte construída mais ou menos no meio do caminho. A ponte nova parecia deslocada comparada com a paisagem urbana histórica. Abaixo do arco da ponte, era possível ver o reflexo de um pequeno barco passando por ali.
"...?"
Eu acabei ficando confusa graças a estranha aparência da pessoa em cima da ponte.
Era um garoto comendo café da manhã enquanto sentado no corrimão. Era óbvio que ele era uma pessoa do distrito oriental pelo fato dele estar vestindo um quimono, mas não importa como você olhava para aquilo, o que ele tinha na boca era pão. Uma pessoa da facção do arroz estava comendo pão.
Próximo a ele, estava a figura de uma mulher que estava esfomeadamente estufando suas bochechas com um onigiri. Parecia que ela era da facção do arroz. Apesar de vestir um vestido.
Eu fiquei curiosa. De alguma forma, era uma visão bem incomum.
"Um, com licença."
Eu chamei os dois.
Os dois trocaram olhares, então o garoto me respondeu "Tem algo de errado?" Pão nas suas mãos. Mas vestindo um quimono. Como esperado, é estranho.
Eu perguntei após me apresentar brevemente, "Que tipo de país esse?"
"Que tipo de país, você pergunta...hmm." após cruzar os braços, ele perguntou para a mulher ao seu lado, "Ei, que tipo de país é esse?"
"É um país amável, não?"
"É, realmente. É um país amável. Sim, Viajante-san, é um país amável."
O que eu quero saber não é isso, mas sim...
"A paisagem urbana é amável, mas você é amável também."
"Ah, para, você é ainda mais amável."
"Ufufu."
"Ahaha."
...
Parece que eu sou só um incômodo aqui. Melhor eu sair de uma vez.
Sim, eu senti que não conseguiria nenhuma informação útil deles, não é como se eu quisesse terminar isso rapidamente ou coisa do tipo, sabe? Não, sério.
De qualquer forma, eu rapidamente os agradeci e saí.
Eu caminhei pelos distritos leste e oeste, enquanto falava com as pessoas para obter as informações que eu procurava.
No entanto, quanto mais em caminhava por aí, mais estranha eu me sentia. Eu não percebi mais cedo de manhã já que havia poucas pessoas nas ruas, mas uma vez que o número de pessoas subiu próximo ao meio-dia, começou a ficar difícil diferenciar os dois distritos, já que as pessoas se misturavam livremente entre leste e oeste usando a ponte.
O que era mais estranho, era que os feirantes cuja as barracas tinham letreiros dizendo "Nós não vendemos para pessoas da facção do arroz", apesar disso, estavam passando as mercadorias para pessoas vestidas em quimonos.
Não era só as barracas. Parecia ter algum regulamento oficial em rigor, já que todas as lojas, independente se eram lojas de utensílios ou sacolões, tinham tabuletas dizendo que clientes do lado oposto não seriam servidos.
Mas não havia uma única pessoa se importando com isso. Era como se as tabuletas fossem insignificantes.
Após eu voltar do lado ocidental para o lado oriental, eu passei debaixo do letreiro da vendedora de bolinhos de massa.
"Bem-vinda. O que você gostaria de comer?"
Enquanto sentei na cadeira, a Onee-san vestindo roupas japonesas se inclinou na minha frente. De cara para o letreiro de "Nós não vendemos para as pessoas da facção do pão" que estava lá fora,
"Eu estou na facção do pão."
Eu disse.
"Que tipo de piada é essa?"
Após cobrir sua boca com uma mão, a Onee-san começou a soltar risadinhas. Era um gesto refinado.
"O que você quer dizer com piada?"
Me encarando com olhos afiados, a Onee-san disse, "Não tem ninguém que se importe com esses decorativos, tem?"
Certamente, se você olhar a situação nas ruas, eu posso dizer com certeza que não há ninguém que ligue para os letreiros. Mas se é esse o caso, então qual é o propósito dos letreiros?
"Então, o que você vai pedir?"
"Ah, três mitarashi dango, por favor."
"É para já!"
Parte 3
Ainda me sentindo inquieta, eu cacei uma pousada no lado Ocidental da cidade.
Existem alojamentos no lado Oriental também, mas eu não posso ficar do lado de lá. Não consigo dormir a não ser que eu esteja em uma cama decente. Ou talvez eu só tenha mais dificuldade em me adaptar a quartos de estilo Oriental. Certamente não sou a maior fã de andar descalça em tapetes de palha.
Eu andei para lá e para cá pela cidade, então entrei na pousada que parecia mais barata. Ela tinha uma letreiro frontal que dizia 'Nós recusamos hospedar membros da facção do arroz.'
Bem, vamos apenas ignorar isso.
"Noite." Quando eu entrei, o estalajadeiro aparentemente indiferente estava descansando seu queixo nas suas mãos acima do balcão.
"Quarto para uma noite, por favor," eu disse, pegando uma moeda de prata.
"Agradecido. Vá em frente e preencha o formulário."
"Claro."
Já estava acostumada com esses formulários. Eu terminei de preenchê-lo com uma série de rápidos golpes de caneta. Enquanto eu entregava o formulário preenchido para o estalajadeiro, eu o perguntei, "Se não se importar, poderia me contar um pouco sobre esse lugar?"
"... Nunca te vi por aqui antes, senhorita. Viajante, você?"
"Sim. E essas terras são tão estranhas que eu mal consigo processar direito o que vejo."
O estalajadeiro ficou quieto por um momento, então disse, "Quê cê quer saber?"
Oh, ele sacou. Como o esperado de uma pessoa que constantemente faz negócios com viajantes.
"Certo, me diga o motivo para a Cidade do Ocidente e a Cidade do Oriente serem tão diferentes uma da outra."
O estalajadeiro finalmente me deu as informações que eu tanto cravava.
"Antigamente, essa terra era composta por dois países vizinhos separados pelo canal. O país do lado oriental herdou uma cultura Oriental, enquanto que o país do lado ocidental herdou a Ocidental. Cada país tinha seu próprio rei. Os dois reis se davam bem, e havia uma ótima relação entre os países---Bem, não era tão diferente em comparação aos dias de hoje."
"Mm-hmm." Bem simples.
"Um dia, os dois reis começaram a trocar ideia. Eles disseram, "Por que não transformamos os dois países em um só?" Ninguém tinha nada contra isso já que ambos o Ocidente e o Oriente queriam a mesma coisa. Na real, parecia até que essa decisão havia demorado para acontecer."
"Foi aí que as pontes entre as duas cidades foram construídas?"
O estalajadeiro balançou a cabeça. "Pois é. Os reis construíram elas para comemorar a junção."
"Entendo." Deve ser por isso que elas são tão novas e destoantes.
"Um pouco depois, os dois reis ambos tiveram seus filhos. O rei do lado Ocidental teve uma filha, e o rei do lado Oriental teve um filho. As crianças se davam bem igual seus pais, e eventualmente se casaram. Eles imediatamente construíram um palácio no canal---exatamente no meio do país unido---e começaram a viver lá. Agora os dois se tornaram um símbolo do nosso país. E isso é tudo que eu sei," o estalajadeiro disse, colocando a chave para o meu quarto no balcão.
Eu a peguei e disse, "Muito obrigada. A propósito, senhor, posso te perguntar mais uma coisa?"
"O que é?"
Eu o contei sobre a estranha pergunta que me foi feita quando eu entrei no país, e sobre as tabuletas estranhas no portão e na frente das lojas, também sobre o casal que eu encontrei na ponte. "A princípio, pensei que o país estivesse dividido internamente, mas olhando ao meu redor, me parece que as pessoas não dão a mínima para as tabuletas. Eles cruzam as pontes e se misturam sem problemas. Então qual é o propósito de ter essas tabuletas, no fim das contas?"
O estalajadeiro ouviu em silêncio enquanto eu falava e balançou a cabeça quando eu terminei. "Mm. As tabuletas são um preparativo para a grande disputa."
Ele falou com tanta tranquilidade que eu me perguntei se eu havia ouvido errado. "Grande disputa? O que céus isso deveria significar?"
"Ouvi dizer que querem unificar o país sob ou a cultura Ocidental, ou a Oriental. Bem, é por isso que os guardas do portão estão perguntando coisas estranhas de qualquer forma, tal como é a razão para as tabuletas."
Talvez após o país ter sido fusionado sob os bons presságios dos reis da geração anterior, há agora um movimento para dividi-los novamente.
Mas por quê?
"Aqueles dois não sabem o significado da palavra acordo," o estalajadeiro disse com uma risada.
Por sinal, ele me cobrou uma "taxa de informação" após o fato.
Parte 4
Após passar vários dias aqui, eu comecei a me preparar para partir novamente. Essa mistura de culturas Ocidentais e Orientais era até bem fascinante, é claro, mas se me permite ser sincera, era a única coisa que tinha de interessante.
Sentia que já havia visto o suficiente.
Terminantemente, eu estava indo embora sem entender uma parte essencial desse lugar, mas fazer o quê...né? Não me importava o suficiente para realmente buscar à fundo por respostas. Embora eu estaria disposta a escutar caso alguém se prestasse a explicar o porque das tabuletas estarem postas.
Bom, não tem problema. Tentando convencer a mim mesma de que eu não ligava, eu atravessei o portão---
"Ah, espere um minuto por favor, senhorita Bruxa."
---E fui parada. O guarda estendia sua lança na sua frente, bloqueando meu caminho.
"... Um, o que foi?" Tenho certeza de que eu parecia bem confusa.
"Se for possível, você não nos daria um pouco mais do seu tempo?"
"...? Por que eu faria isso?"
Dependendo do tempo, da situação e do motivo, eu não era contra ouvir o que ele tinha a dizer. Se for algo bobo, eu irei dizer não e sair, entretanto.
"Você foi convocada pelo lorde e pela dama."
".......Quê?"
Pelo visto o motivo não era algo bobo, no fim das contas.
Nós prosseguimos por todo o caminho até o canal, onde me mostraram o castelo que observava ambas as culturas. Eles me encaminharam através do estonteante interior da fortaleza, uma mistura de estilos Orientais e Ocidentais, e finalmente nós chegamos até um gigantesco salão de recepção.
O salão parecia como se um quarto de estilo Ocidental e um quarto de estilo Oriental tivessem sido cortados ao meio, e a metade de cada um deles tivesse sido coladas uma na outra.
Isso não combina nem um pouco...
Eu ouvi alguém fechando a porta atrás de mim enquanto andava pelo local, e eu podia ver dois tronos um pouco mais adiante. O homem e a mulher sentados lá pareciam estar no meio de uma discussão. Eles não pareciam notar minha presença.
"Estou lhe dizendo, a disputa tem que ser uma partida de shogi! Não há alternativa melhor!"
"Só diz isso porque você é melhor no shogi! Quantas vezes eu tenho que dizer que nós temos que jogar xadrez!"
"E quantas vezes eu tenho que te dizer, você é melhor no xadrez!"
"Grrr..."
"Rrrr..."
A atmosfera volátil dava a sensação de que uma erupção de violência poderia ocorrer a qualquer minuto ao que os dois se encaravam dos seus respectivos tronos.
Eu limpei a minha garganta para deixá-los saber que eu estava ali. Não era a coisa mais educada a se fazer na presença da realeza, mas isso foi efetivo em fazê-los notarem minha presença.
"Huh? Você deve ser..."
"A viajante, não é? Ora, ora..."
Eu me curvei. "Me foi contado que Vossas Altezas tinham algo a tratar comigo, então eu vim assim que fui chamada. Como posso ser de útil?"
"Mm. A verdade é---"
O rei abriu a boca para falar, mas a rainha o interrompeu.
"Eu vou contar para a bruxa, então você pode parar por aí."
"Como é---? Eu vou explicar..."
"Não, eu vou."
Alguém poderia simplesmente se apressar e me dizer logo o que está acontecendo? Não me importo com quem seja... Olá...?
Eventualmente, após argumentarem em círculos, o rei tomou as rédeas e me contou tudo.
"O fato é: Essa terra está nas vésperas de uma guerra. Como pode ver, essa mulher e eu não nos damos bem. Nós concordamos em resolver as coisas com uma competição, mas agora nós não conseguimos decidir o que essa competição deveria ser. Ouvi dizer que você é neutra, não associada com nenhuma das duas facções, então nós queremos que você decida como devemos proceder."
"... Vocês não conseguem decidir qual será a competição?" Não, antes disso... "Primeiro de tudo, poderia me dizer porque vocês querem fazer essa competição, para começar?"
O rei levantou sua voz, "Porque ela insultou as pessoas do lado Ocidental! Ela disse, 'Pessoas que não comem arroz no café da manhã não são humanas'!"
Imediatamente, a rainha interrompeu ele com uma objeção. "Não, foi porque você disse, 'Pessoas que não comem pão no café da manhã são inferiores a cachorros'!"
"Ok, chega. Fiquem quietos vocês dois por um momento, por favor."
"....." "....."
Isso estava ficando exasperante, então eu calei ele e tomei controle da situação eu mesma. Eu retomei o diálogo com o rei.
"Sua Alteza, quando entrei nesse país, a primeira coisa que eu vi foi uma estranha tabuleta. Era um letreiro desconcertante, cujo propósito era dividir a facção do arroz e a facção do pão, mas conte-me---exatamente para qual propósito isso serve?"
"Facilita para ver em qual lado há mais pessoas."
"Nós colocamos eles lá para descobrirmos qual deles era o mais influente."
Por que a rainha está respondendo também...? Bem, tanto faz. Chamar a atenção dela sobre isso seria trabalhoso demais.
"E qual foi o resultado?" Eu perguntei.
O rei respondeu, "Tem mais pessoas do lado Ocidental."
"Tem mais pessoas de influência no lado Oriental," a rainha adicionou.
"É por isso que eu disse que nós devíamos decidir baseado no maior número de pessoas."
"Não. Nós deveríamos decidir o vencedor baseado no poder financeiro. Obviamente."
"Você não entende nada, nunca entendeu."
"Posso dizer o mesmo de ti."
"....."
"....."
Enquanto os dois encaravam um ao outro novamente, eu subitamente lembrei de algo. Sobre o que eles estavam gritando assim que eu entrei no salão de recepção? Era xadrez e shogi, não era?
Se o argumento é sobre decidir através de uma regra de maioria ou através de poder financeiro, então por que eles estavam falando sobre jogos de tabuleiro?
Sem sequer esperar pela minha resposta, os dois obstinadamente retomaram sua discussão. "Então nós não podemos decidir, afinal. Nesse caso, eu quero escolher o método para determinar o método para determinar o método para determinar o método para determinar o método para determinar o método para determinar o método para determinar o método para determinar o método de realizar a partida com um jogo de xadrez."
"Não. Shogi."
"....."
"Você não entende. Se nós jogarmos shogi, você terá a vantagem por ser melhor nisso!"
"Você não entende, você sempre ganha no xadrez!"
"...."
Sinto como se eu tivesse acabado de dar uma espiada por trás das cortinas. Só para ter certeza, eu perguntei para o rei e para a rainha, "A propósito, quando essa discussão começou?"
Ambos se viraram para mim e responderam simultaneamente, "Dois anos atrás."
"Ah, entendo. Pois bem, acho que vocês deveriam desistir, porque vocês nunca irão resolver isso," eu disse, e deixei o palácio. Os dois continuaram gritando e não fizeram nenhuma tentativa de me impedir.
Parte 5
Agora eu entendi o motivo dos moradores de ambas as cidades ignorarem completamente as tabuletas. Já fazem dois anos desde que o rei e a rainha disseram que iriam realizar uma competição e unificar o país sob uma cultura ou a outra. O tempo passou sem nada realmente acontecer, e provavelmente nenhum dos cidadãos se importava sobre um monte de tabuleta colocadas lá em prol de uma desavença.
Os letreiros já se tornaram nada mais do que meras decorações.
Olhando por outro ângulo, era um sinal de que a autoridade da coroa havia se tornado obsoleta. Atualmente, ninguém em todo esse país dava a mínima para o que a realeza dizia.
"Ah, senhorita Bruxa. O que achou do nosso país?"
O guarda veio me cumprimentar quando eu voltei do palácio para o portão. Eu passei por ele, e só me virei quando havia colocado meus pés no mundo exterior.
Olhando para a curiosa colisão de culturas, eu disse, "É um bom e pacífico lugar." Embora eu não possa prever o futuro dele.
Talvez o rei e a rainha irão perceber que eles estiveram perdendo o tempo deles e irão voltar a atenção deles em governar. Talvez eles irão continuar estendendo isso, e todo o lugar irá ficar mais e mais estranho. Ou talvez tudo irá continuar como está.
Independente do que acabar acontecendo, não é da minha conta.
"Sim, sim, é um lugar bacana, não é?"
O guarda do portão concordou com satisfação.




















