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fortissimo EXS//Akkord:nächsten Phase completa 10 anos!
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| A capa da versão EXA é a mais bonita de todas. Se fosse um livro, amaria tê-lo na minha estante! |
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| A árvore de cerejeira é um dos elementos principais de Da Capo. Em Fortissimo, obviamente, também é. |
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| A ilha onde a obra se passa se chama Tsukuyomi-jima (Tsukuyomi = Deus da Lua na mitologia japonesa) e tem o formato de uma magatama, um objeto muito simbólico no Japão. |
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| O jogo tem esse menu com os personagens e suas descrições. Repare no ff ali no canto, é o símbolo que significa "Fortissimo". Se fosse fff a obra se chamaria fortississimo. 😂 |
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| Uma das imagens promocionais de Kadenz Fermata no anime de Saekano ali no canto superior direito, estrelando a protagonista da obra: Freya. |
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| Uma das capas de Kadenz Fermata em uma CG da Visual Novel de Saekano. |
Top #06 - Protagonistas mulheres em obras de ação/aventura
Eu não sei vocês, mas eu particularmente gosto bastante de obras de ação e/ou aventura protagonizados por uma mulher. Na verdade, na maioria dos gêneros isso acaba sendo um diferencial para mim. E ás vezes é curioso que, mesmo que seja uma obra sem nada de novo para oferecer e com uma personagem principal insossa, ainda assim soa um pouco diferente das demais obras, na minha opinião. Mas é justamente isso, há uma diferença, que é a figura central de uma mulher na história.
A velha noção de que obras de ação são para garotos e obras de romance são para garotas já se perdeu a muito tempo, a maior prova disso é que temos tido inúmeras obras de romance protagonizadas por personagens homens nos últimos 10 anos. Mangás shounens de romance têm se tornado uma certa tendência e light novels com uma pegada similar já vêm sido lançadas aos montes desde meados dos anos 2000. No entanto, quando olhamos para o outro lado, as obras de ação/aventura/outros gêneros protagonizadas por mulheres tem sofrido para se tornar algo comum.
Mas como eu dei a entender na primeira frase desse texto, não é como se não existisse. Recentemente, em live, eu joguei alguns jogos protagonizados por personagens femininas como Child Of Light, Hellblade: Senua's Sacrifice, A Plague Tale: Innocence ou NieR:Automata. Uma das minhas franquias favoritas é a de Metroid, que foi um dos primeiros jogos na história a colocar uma protagonista mulher, ainda que com algumas ressalvas, lá nos anos 80. A própria franquia de Tomb Raider alavancou a Lara Croft como uma das personagens femininas mais memoráveis dos jogos... Ainda que não tivesse muita concorrência na época. Até quando entramos em um tópico mais controverso, como isekai, vemos que uma das obras que conseguiu esse apreço maior, mesmo em meio a tanta desconfiança, foi justamente o que era protagonizado por uma garota, que no caso foi Honzuki no Gekokujou, ou Ascendance of a Bookworm. A obra conseguiu o feito de ser licenciada aqui no Brasil, pela NewPop, sendo ambos o mangá e a light novel.
Algo que eu prezo bastante e que ajuda a quebrar um pouco dessa limitação das obras são os jogos que permitem você criar seu personagem, ou ao menos escolher entre homem ou mulher. A trilogia de Dragon Age é, talvez, o exemplo perfeito do que eu gostaria de dizer nesse post. O primeiro jogo, Dragon Age Origins é um dark fantasy, uma fantasia sombria, no melhor estilo Berserk de ser (Ou não, nunca li Berserk, mas o que já vi e ouvi falar da obra me diz que a comparação é bem válida) e podemos criar uma personagem mulher para ser a protagonista. A história toda se molda ao redor da personagem que você criou, então você realmente consegue experienciar essa jornada da forma que você gostaria. Não à toa das quatro vezes que eu joguei, três foram com personagens femininas (Já nas duas continuações, joguei 4 vezes com 4 personagens femininas). Dragon Age II opta por uma fantasia urbana, se passando a maior parte do tempo em uma cidade e com tramas mais pessoais, seguindo a mesma linha do primeiro na hora de criar seu personagem. Por fim, Dragon Age Inquisition assume a narrativa da fantasia épica, da odisseia, no estilo Senhor dos Anéis.
Querer uma obra de qualquer um desses 3 tipos com uma mulher nos holofotes é uma tarefa complicada, mas graças a jogos como Dragon Age, isso é muito possível. E nisso podemos encontrar diversos jogos que te dão essa opção, como a franquia de Monster Hunter ou o recém-lançado Elden Ring. Tem também os jogos que são mais limitados, te deixando escolher apenas o gênero, ou um personagem fixo, mas que ainda sim te dá a opção e isso já é um bom começo. Eu gostei bastante de 7th Dragon 2020 por conta disso, pois pude escolher uma personagem dentre algumas opções que o jogo te dá e ter essa experiência na minha jogatina. Em Fate/Extra aconteceu o mesmo, exceto que o jogo só te dá a versão masculina ou feminina do mesmo personagem. E aqui mora a grande problemática que me faz ter que escrever um texto desses: Em uma adaptação em anime de Fate/Extra, onde tem que escolher entre os dois, eles obviamente optam pelo protagonista masculino, algo que é o procedimento padrão na maioria dos casos, porque suspostamente é o "certo". É só tomar Genshin Impact como exemplo, onde te dão a opção de escolher entre o Aether (Protagonista masculino) ou a Lumine (Protagonista feminina), mas tudo quanto é material promocional é usado apenas o Aether, ao ponto de fazer quem joga com a Lumine se sentir excluído ou até mesmo "errado" por ter optado por uma personagem principal mulher.
Quando falamos de outros tipos de mídia, poder escolher o protagonista ou criar seu próprio personagem deixa de ser uma opção. No entanto, ao menos no caso da cultura pop japonesa, a gente tem alguns meios de escapar um pouco desse buraco. A exemplo, posso citar o subgênero mahou shoujo, ou garotas mágicas como preferir, que é basicamente centrado em ter uma protagonista mulher, alguns outros conceitos um tanto abstratos e com espaço para apresentar qualquer tipo de história imaginável. Então dá para se ter uma fantasia épica em obras como Magic Knight Rayearth. Dá para se ter fantasias urbanas em obras como Chikyuu Shoujo Arjuna. Dá para se ter fantasias sombrias em obras como Puella Magi Madoka Magica. A franquia de Precure é uma excelente opção para quem quer algo mais leve, mas com ação em todo episódio e uma boa dose de temas relevantes sendo abordados e boas mensagens sendo passadas. São mais de 15 anos dando o protagonismo para as garotas, as colocando com o papel do herói nas histórias, algo até abordado em uma de suas temporadas mais recentes: Hugtto Precure (2018), onde a protagonista nos entrega a frase "Garotas também podem ser heróis!". Pois sim, podem e devem, a variedade é um elemento importante, afinal.
Em Mahou Shoujo Lyrical Nanoha a ação é tão intensa quanto em qualquer battle shounen da vida que vemos sempre por aí, em Shoujo Kakumei Utena a narrativa metafórica e psicológica é tão profunda quanto qualquer seinen desse tipo pode ser, até Kamikaze Kaitou Jeanne que é bem mangá shoujo te entrega uma protagonista memorável e com momentos de glória e de queda, tendo o romance só como uma (grande) parte da narrativa. E claro, não dá para passar por um trecho falando de mahou shoujo sem citar Sailor Moon, uma série que reforçou muito toda a ideia que eu venho comentando aqui nesse post.
O fato é: Ainda precisamos evoluir muito nesse quesito. Obras de esportes femininos é algo que é muito escasso, por exemplo. Mas existem opções, sim, e acho que vale a pena prezá-las. Seja um filme como Kill Bill ou um livro como Alice no País das Maravilhas, seja um jogo como Final Fantasy XIII ou um mangá como Hime-chan no Ribbon, seja um anime como Black Rock Shooter ou uma light novel como Kusuriya no Hitorigoto, o primeiro passo a ser dado por nós consumidores é... Bem, consumir. Não estamos tão bem de representatividade, é evidente, mas ao menos ainda temos algumas opções disponíveis.
Pois bem, para fechar o assunto, vou trazer meu top 5 protagonistas mulheres e convido a todos a fazerem o mesmo. O critério é simples: Ser protagonista de uma obra que não tenha o foco em romance. Não precisa ter ordem específica. Pode ser de qualquer mídia! Então, vamos lá.
Lightning Farron (Final Fantasy XIII)
Apesar de eu sempre ter tido muita vontade de jogar o Final Fantasy XIII, quando eu finalmente pude, tive uma grande surpresa ao entender o quão memorável a Lightning era como personagem. Você cria uma certa expectativa de que ela seja uma personagem badass e intocável, mas descobre que ela é falha como qualquer ser humano, que tem seus conflitos e que não só os resolve, como cresce como pessoa ao longo do primeiro jogo. Chegar ao final da jornada dela é até tocante, de certa forma, pois mostra uma personagem com um desenvolvimento e construção fantásticos.
Reimu Hakurei (Touhou Project)
O pilar central do universo de Touhou, do mundo de Gensokyo, a Reimu é uma personagem de carisma rivalizado apenas pela co-protagonista da obra, Marisa Kirisame, e mesmo após mais de 25 anos de franquia, parece simplesmente impossível cansar de ter a Reimu como a principal figura de Touhou. A sacerdotisa é única em personalidade e postura dentro da obra, criando essa persona de alguém que não parece levar as coisas muito a sério, mas está sempre lá para eliminar os youkais com êxito sempre que causam problemas.
Wakaba Nogi (Nogi Wakaba wa Yuusha de Aru)
Uma coisa que eu gosto bastante de acompanhar é uma personagem que precisa superar seus próprios defeitos para alcançar um objetivo que muitas vezes ela nem sabe que precisa buscar ainda. A Wakaba vai ainda além, passando por uma ascensão de alguém até que egoísta por um desejo cego por vingança até chegar na figura de uma heroína, enfim assumindo a responsabilidade social que ela precisa ter com as pessoas ao redor dela, uma vez que ela é uma das únicas com o poder de trazer conforto para os necessitados.
Utena Tenjou (Shoujo Kakumei Utena)
A Utena é uma personagem que eu adorei mais do que eu previa. Complexa, ela é uma personagem fisicamente muito privilegiada, ao ponto de conseguir combater os duelistas mesmo sem ter a experiência necessária. Porém, psicologicamente ela é inocente e vulnerável, o que é natural para alguém da idade dela, mas que a torna um alvo fácil para gente mal-intencionada. O crescimento dela é espontâneo, ao ponto em que você chega no final do anime com uma sensação de satisfação evidente, vendo o desfecho da jornada de uma baita personagem.
Vivio Takamachi (Mahou Shoujo Lyrical Nanoha ViVid)
Nanoha é minha franquia favorita de todas as mídias, mas apesar da protagonista que dá nome a obra ser uma personagem incrível, é a protagonista de um spin-off que realmente mais me apeteceu. A Vivio é uma menina que passa por um desenvolvimento longevo, que começa em Mahou Shoujo Lyrical Nanoha StrikerS e termina no final do mangá Mahou Shoujo Lyrical Nanoha ViVid, podendo até ser considerada suas participações em ViVid Strike!. Entretanto, é no mangá que ela assume o papel de protagonista e brilha muito nele. É uma garota que tem quedas e quedas, mas está sempre se superando e buscando ir além, obtendo um amadurecimento respeitável e satisfatório.
E bem, acho que é isso. Quis aproveitar a data para levantar essa questão e também trazer diversos títulos que quebram um pouco esse problema social que temos. Mas mais do que isso é que passar de meia-noite não significa parar de falar sobre o tema, por isso o post aqui estará dentro do quadro de tops, para sempre ser encontrado quando entrarem na tag. Espero que se torne cada vez mais comum o protagonismo das mulheres nas obras que não necessariamente são focadas em romance, pois querendo ou não fazer algo de diferente, mesmo que a história ou outros elementos não sejam novidade, já é uma escolha elogiável. Eu, ao menos, considero como um critério positivo a mais quando uma obra tem essa irreverência. Enfim, não deixem de citar aí seus tops pois podem acabar servindo de recomendação pra mim também, independente da mídia. Saraba Da!
A Arte Não é Uniforme, Tampouco Somos Nós
Queria divagar um pouco sobre um tópico que vem me chamando a atenção nos últimos anos devido a várias polêmicas envolvendo não só alguns animes ou mangás, mas a arte no geral. Existe um movimento na internet atual que inibe opiniões contrárias, que só aceita opiniões similares e olhe lá. São pessoas que estão presas nas suas bolhas e não querem saber da existência do que existe fora dessa bolha. Há uma série de problemas sociais sérios em que isso pode acarretar, mas como o blog aqui não é de sociologia, mas sim de cultura pop japonesa, meu foco vai ser falar sobre os problemas que isso gera na percepção e consumo da arte em si. Quando uma pessoa se prende nessa ideia de que só a sua opinião importa, já é uma limitação imensa que ela está impondo a si mesma. Mas quando essa pessoa vai a espaços públicos se degladiar com outras por terem opiniões diferentes, aí é onde se tenta impor essa limitação em todo mundo. Essa limitação vai contra não só a natureza da arte, mas a própria essência de nós, seres humanos. Afinal, como o próprio título desse post já diz, a arte não possui uma forma fixa e objetiva, que você pode quantificar e aplicar a uma obra uma perspectiva definitiva e universal. Nessa mesma linha estamos nós, pessoas desse mundo, que estamos sempre em constante mudança, afetada seja pelo amadurecimento natural ou por circunstâncias externas que nos forçam a mudar em algum sentido. Essas duas coisas são muito mais conectadas do que a maioria gosta de reconhecer, sobretudo nos dias de hoje.
Na data em que este post está sendo publicado, foi recém-lançada uma lista dos melhores jogos de todos os tempos que está dando o que falar. Muitos que concordam com o jogo eleito o melhor de todos e muitos que discordam disso estão neste momento brigando entre si. Tal como estavam quando lançaram a lista de melhores animes da década, ano passado. Ou quando a NHK fez uma lista dos 100 melhores animes de todos os tempos. Eu pessoalmente acho esse tipo de lista detestável, tal como os rankings por notas como o do MyAnimeList, é simplesmente ir contra o que é a arte e passar por cima da experiência de milhões de pessoas. Esse tipo de lista, que geralmente só é criada para gerar esse tipo de engajamento mesmo, dá muita margem justamente para quem quer te impedir de ter opinião própria. Estou citando essas listas por terem um alcance comunitário bem grande, mas esse tipo de coisa acontece frequentemente a nível individual. Para quem é ativo em rede social, você sempre vê pessoas usando expressões falaciosas para impor sua opinião como algo incontestável, colocando coisas como "Todo mundo sabe", "É fato que" antes de expor algo completamente subjetivo. Toda experiência é válida, a sua, a minha e até a daquela pessoa que gosta daquela obra que "todo mundo sabe que é ruim, é um fato". Se todos dessem esse primeiro passo ao aceitar isso, boa parte dos problemas já se resolveriam, mas esbarramos em um grande, grande problema: O ego.
Não basta ter a sua experiência própria com uma obra, a pessoa quer que essa experiência seja a única que está correta. Essa mentalidade que cria essa bizarrice que é achar que as qualidades da arte são "científicas", isso é, algo que dá para calcular e chegar em um resultado irrefutável. E claro, quem acredita nisso está sempre do lado certo dessa "ciência", pois aí é só ter sua opinião e afirmar que quem discorda está errado e ponto. Infelizmente importamos lá de fora essa noção esdrúxula de julgar o gosto alheio como bom ou ruim, além de já colocarmos um medidor de credibilidade nas pessoas que é definido a partir do nosso próprio gosto pessoal, o que é uma absoluta demonstração de um grande egocentrismo. Já fui de "muito confiável" para "nada confiável" baseado só nas obras que eu estava elogiando, mas se a pessoa está procurando alguém para dar tapinhas nas suas costas enquanto diz o quão incrível e inquestionável é o seu gosto por entretenimento, não vai ser aqui que ela irá encontrar. Vejo muito destrato com pessoas por considerarem boas obras como Fairy Tail ou Boku no Hero, e veja bem, uso o termo "considerar bom", ao invés de "gostar", propositalmente, pois cabe a cada um ter seus próprios critérios de avaliação. Discordância é natural e o debate é engrandecedor, mas normalmente optam não por seguir seu rumo, mas pelo desrespeito, deboche ou a briga.
A única verdade absoluta na arte é que ela existe muito mais em nós mesmos do que na realidade. A arte é um reflexo de quem a consome, e nós somos metamorfoses ambulantes, por isso ela nunca será uniforme. Duas pessoas podem ter a mesma obra como favorita, mas vão gostar da obra de maneiras diferentes, por motivos diferentes e em contextos diferentes. E está tudo bem em ser assim! No fim das contas, até se limitarmos o escopo de pessoas para apenas nós mesmos, teremos experiências diferentes com a mesma obra se a consumirmos em contextos e épocas diferentes, até um dia ruim pode afetar sua perspectiva de uma obra. Ou você nunca deixou de gostar ou passou a gostar mais de uma obra que você assistiu anos atrás e reasssistiu recentemente? A arte é como um espelho em movimento, ela vai estar sempre refletindo alguma coisa diferente. É por isso que existe esse conceito no cinema de filmes de décadas atrás que foram considerados ruins pela maioria quando foi lançado, mas hoje é considerado bom porque a arte tem dessas. Nem o tempo consegue estagnar a arte, porque um bando de pessoas aleatórias conseguiriam?
Oyasumi Punpun lançou entre 2007 e 2013, já Fortissimo lançou a princípio em 2010, mas só teve o lançamento completo em 2012. Essas duas obras, que eu puxei de memória aqui agora, tem uma coisa em comum, na minha opinião: Suas temáticas conversam muito mais com a atualidade do que conversavam quando lançaram. São só 2 exemplos, mas inúmeras obras passam por isso, e é um exemplo de que mesmo quando não é moldada pelo nosso reflexo, ela pode ser moldada por outras questões externas. Por isso abomino tanto a ideia de querer concretizar uma ideia imutável na arte. O ponto deste texto é: Vamos ser menos "é assim e ponto final" e mais "entendo, mas penso diferente". Se quiser debater, ótimo. Debates saudáveis são ótimos exercícios para a mente e até para o nosso conhecimento. Mas se não quiser debater, tudo bem também! O importante é respeitar a experiência alheia e evitar achar que alguém não tem o direito de achar a obra X melhor que a obra Y. Cada um tem sua leitura de cada obra, só o exercício de refletir sobre ela já está te ajudando muito intelectualmente, tal como a diversão que uma obra proporciona também ajuda muito emocionalmente. É triste ver pessoas tentando invalidar essas experiências. Não espero que um texto qualquer vá fazer todos se respeitarem mais, mas se ao menos servir para oferecer uma perspectiva mais profunda sobre o que é a arte, já me darei por satisfeito. Seria bom também não ser mais confundido com um troll de internet por ter dito que acho um jogo bom haha. Saraba Da!
O que falta para as adaptações de Light Novels?
Como um grande apreciador de ambos light novels e animes, é duro ver como boa parte das adaptações acabam dando errado. Não é algo desastroso como é com as adaptações de visual novel, mas ainda assim boa parte das adaptações não conseguem sequer se destacar. As adaptações que se destacam, na maioria das vezes estão fazendo algo de diferente na sua produção em comparação as demais adaptações de LNs. Hoje quero comentar um pouco sobre a minha visão do assunto, onde está dando errado e o que poderia ser feito para melhorar. Antes, caso queira ler um pouco mais à fundo sobre light novels e web novels, tem um post desse tema aqui no blog: "Sou Nan Da! #06 - Novel, Light Novel e Web Novel"
É necessário dizer que muito dessa questão vai além do nosso gosto pessoal sobre o conteúdo das obras em si, então talvez eu cite como exemplo positivo uma obra que você ou eu não gostamos, mas que teve uma produção que buscou criar um material animado que fosse uma adaptação digna e por isso se destacou. O texto não é para discutir a qualidade das obras em si, mas sim qual o processo que tornou essas adaptações algo notável ou esquecível de um ponto de vista técnico.
Ritmo
Acredito que a adaptação por volume acabe sendo um pensamento contra produtivo para as obras, pois acaba sendo metódico demais. "São 12 episódios, então divide 3-4 episódios por volume e pronto", quando na verdade deveriam dedicar o número de episódios necessário para o conteúdo que o volume oferece, se precisar de 5 episódios, usa 5, se precisar de 6, usa 6. Mas aí entra um problema que falarei mais para frente. Além do ritmo, outro aspecto muito relevante, talvez o mais relevante é a apresentação.
Apresentação
A forma que a adaptação é apresentada muitas vezes deixa a desejar e isso tira um brilho que ela poderia vir a ter, independente do seu conteúdo. Por apresentação eu estou incluindo a direção, a animação, todo o aspecto artístico visual que a obra pode ter. São coisas que fazem muito a diferença e isso é visível em adaptações como a de KonoSuba, Re:Zero ou até Mushuku Tensei. Existe um grande capricho da staff desses animes que as fazem se destacar de outras obras do mesmo nicho. Adaptações como 86, que usam de simbolismos visuais que conversam com a narrativa da novel tornam essas adaptações obras próprias, que existem como algo além de uma propaganda do material original. Mahouka, por exemplo, é uma adaptação que conversa muito mais com quem leu a novel do que com quem está tendo seu primeiro contato com a obra através da animação. Boa parte das adaptações só tentam repassar o que está nos livros em forma animada e, somado ao problema de ritmo citado acima, acabam perdendo muita individualidade e se tornando uma experiência esquecível. Não há espaço para diretores ou animadores talentosos brilharem, monólogos importantes dos personagens e partes da narração contendo informações cruciais são cortados por não ser só jogar na tela e pronto. Os funcionários que pegam esses projetos certamente nem tem liberdade (Ou tempo... Provavelmente os dois) para fazer algo diferente. Você pode pegar Mahou Shoujo Ikusei Keikaku, que apesar de adaptar um único volume em 12 episódios, o anime além de não conseguir se destacar em nada, ainda consegue soar corrido. Por outro lado, poderia citar a série de Monogatari, mas aí seria chover no molhado.
Acredito que precisamos de mais liberdade criativa nas adaptações de light novels. Vejo bastante disso em adaptação de mangá, não sei afirmar se ali há, de fato, mais liberdade ou se é só uma consequência de se ter muito mais adaptações de mangá do que de qualquer outra mídia. Mas a média de acertos e erros certamente é bem mais negativa para as adaptações de LN. Apesar de nos últimos 2-3 anos estar surgindo mais adaptações de LN feitas de forma mais criativa e com maior investimento.
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Infelizmente não tenho muita saída para esse problema, uma vez que a indústria não se importa com a criatividade artística... Não se importa nem com as pessoas que ali trabalham, vide a vida precária dos animadores. Nesse sentido, estúdios que criam seus próprios biomas diferenciados, como a Kyoto Animation, acabam sendo vitais para termos um respiro de obras menos comerciais e mais artísticas. Adaptações como Violet Evergarden e Chuunibyou demo Koi ga Shitai! seguem o modelo que considero ideal:
- Adaptam um material curto, geralmente apenas 1 volume em 12 episódios.
- Apresentação única, onde seus profissionais talentosíssimos tem a liberdade até para moldar aquele material original para algo diferente na animação.
- Foco na arte, pois geralmente pegam novels que o próprio estúdio seleciona a dedo e aí podem trabalhar a adaptação da forma que preferirem.
Infelizmente perdemos muitos talentos raros no ataque incendiário que o estúdio sofreu há 2 anos e a indústria pouco incentiva os jovens a seguirem esse ramo de trabalho, mas mais estúdios podiam seguir o exemplo da Kyoto Animation.
No mais, a situação das adaptações de light novels me parece estar melhorando, mesmo que lentamente. Tenho notado que mais animes tem ganhado segunda temporada, o que daria mais espaço para as obras se desenvolverem, já que 12 episódios é muito pouco para uma longa história como costuma ser o caso das obras adaptadas. Torço para que as novels se tornem mais populares, pois é o único jeito de convencer a indústria a investir mais nas suas adaptações. Enquanto isso, o que dá para fazer é um texto como esse explicando onde essas adaptações costumam dar errado e porque hoje em dia eu já não recomendo uma adaptação ainda não lançada de uma light novel que eu gosto, já que só após começar a lançar que você vai descobrir se a adaptação é boa ou não. Pior do que me decepcionar, é decepcionar os outros haha. Saraba Da!
As muitas faces ignoradas da realidade
Realismo - Um termo que começou a aparecer com maior frequência na última década, e que assim como muitos e muitos outros, começou a ter seu sentido despedaçado pelo mal uso das pessoas. Essas mesmas pessoas normalmente são aquelas que se consideram "realistas". Porém, até onde isso é verdade?
O uso do argumento da obra ser ou não realista se tornou bem comum, e embora eu tenha dito que ele está perdendo o sentido pelo mal uso poucas linhas acima, na verdade não funciona bem assim. Antes de mais nada, me parece que essa é uma noção que eu carrego comigo, mas que a maioria das outras pessoas ainda não se deram conta. Não se deram conta não só de que o argumento está fragilizado, mas também de que ele raramente é usado da forma correta.
Quando se fala de obras realistas, que tipo de obra lhe vem à mente? Acho que podemos começar daí. Existem grandes chances de que o tipo de obra que vem à sua mente quando pensa nisso seja o motivo desse post estar sendo escrito. No que você pensa quando se trata de realismo? Sofrimento? Tragédia? Grandes conflitos (Tanto externo quanto interno)? O que me deu a ideia de escrever o post foi um tópico criado em um fórum de Visual Novel cujo título era: "Você prefere finais felizes ou finais mais realistas/agridoces?"
Isso me incomodou em um nível que não dava para simplesmente ficar quieto sem pautar esse assunto, pois a mentalidade que acha normal pensar que tem os finais felizes e os finais realistas está se proliferando em alta velocidade. Esse post vai longe, então vamos com calma.
Primeiro, eu quero afirmar que isso não existe. Não existe só uma realidade (A trágica), o que não falta no mundo são pessoas que vivem a maior parte da vida felizes e morrem felizes. Mas também não existe só a realidade feliz e a realidade triste, muito pelo contrário, são raríssimos os casos de vidas inteiramente felizes ou inteiramente tristes, a grande maioria absoluta é uma mistura dos dois que pode variar em quantidade de momentos felizes/tristes.
Estamos em uma época onde se tornou legal sofrer, o que, desnecessário dizer, não é nada legal. Essa romantização do sofrimento já chegou em um nível que se tornou normal sofrer e incomum ser feliz. É até difícil falar disso pois desviaria totalmente do tópico em questão, que é sobre obras fictícias, e viraria todo um texto sobre um dos problemas da sociedade moderna. A questão é que obras mais positivas começam a serem olhadas com desdém, não por serem bem feitas ou mal feitas, nem por preferências pessoais, mas por não serem "realistas" segundo muitas pessoas.
Mas isso é estranho, vocês não acham? Afinal, se você tem a possibilidade de estar aqui lendo esse post, é muito provável que você viva uma vida comum, talvez feliz, talvez entediante, mas comum. Não é regra, claro, talvez você tenha problemas de saúde, como depressão ou algum problema físico. Talvez você tenha problemas familiares complicados, ou então problemas no trabalho. Talvez você tenha passado por experiências traumáticas no passado, ou até no presente. Mas é importante entender que não existe só uma realidade, cada um vive sua própria realidade. Existem duas vertentes nesse tópico. Pessoas que vivem vidas comuns e rotineiras, quiça felizes, mas acham que tragédia é realismo, o que é contraditório já que seria como dizer que sua própria vida não é "realista". A outra vertente são as pessoas que, de fato, passam ou passaram por grandes dificuldades, mas acham que sua realidade é realismo, o que é uma forma bastante fechada de ver as coisas já que não é difícil encontrar pessoas que vivem realidades completamente opostas. Esse segundo exemplo eu trarei à tona mais pra frente, antes falarei do primeiro exemplo.
Muitas pessoas associam realismo não ao que vivem/viveram, mas sim a sua visão de mundo, o que é um erro absoluto, na minha opinião. Se for para falar algo assim, que ao menos seja baseado nas suas próprias experiências. Ou então tenha certos tipos de obras como uma preferência, e não como certo ou errado. Esse é o tipo de caso mais complexo e totalmente fora de alcance para alguém como eu poder fazer algo à respeito, mas é bem óbvio que já se tornou uma bola de neve, uma visão de mundo moldada artificialmente. Além da romantização do sofrimento, as notícias se focam quase que completamente em tragédias, alimentando a ideia de que só há tragédia no mundo, afinal, coisas boas jamais dariam tanta audiência ou visualizações, certo? Se torna um ciclo que se mantém eternamente nisso, pessoas só recebem tragédias, pessoas só consomem tragédias. E é nesse ciclo trágico que pensamentos como o de que ser constantemente feliz é falso nasce, afinal, não tem como uma pessoa ser bem feliz, certo? Deve estar escondendo as suas tragédias.
Voltando ao segundo exemplo. Quando se trata de pessoas que experienciaram dificuldades grandes o bastante para poderem dizer que tiveram uma vida complicada, é um caso mais complexo, bem mais. As experiências são válidas, tanto quanto a realidade que a pessoa vive. Existem inúmeras diferentes realidades, uma para cada pessoa, e todas são, de fato, válidas. Mas é importante entender que da mesma forma que você pode ter uma vida conturbada, outra pessoa pode ter uma vida pacata, e que ambos são igualmente reais.
Uma questão interessante que vi uma vez, voltando a ficção, é sobre se os romances dos animes são realistas ou não? Como é de se imaginar, 80% das pessoas disseram que não, não eram nem um pouco realistas. E creio que muitos de vocês que estão lendo esse post concordam com esses 80%, tal como imagino que pelo andar do texto até aqui, e o teor do meu comentário sobre essa questão em específico, vocês já devem suspeitar disso, mas eu obviamente faço parte dos poucos que disseram que sim, são realistas, por que não? Eu provavelmente deveria ir cursar advocacia no inferno, de tanto que faço papel de advogado do diabo em tudo quanto é canto.
A questão aqui é que quem acha que não é simplesmente pela visão de que existe a realidade verdadeira e a realidade falsa, e que a "realidade verdadeira" é sempre a mais negativa. Um casal adolescente em um romance bonitinho claramente não existe, iriam brigar e se separar em três meses, afinal, não é assim com todo mundo? Bem... Não. Grande parte dos romances das obras nipônicas são retratadas através de ideais, não inexistentes ou utópicos, mas sim que são mais e mais desprezados pela sociedade moderna. Por mais irônico que isso possa parecer, o padrão dos animes é fora dos padrões da sociedade, e por isso não é muito bem aceito. Sim, porque o que acontece nos animes de romance, também acontecem na vida real, e eu cansei de ver exemplos por aí não só na minha realidade, mas de relatos de outras pessoas em redes sociais como o Twitter, por exemplo. Não é porque seu primeiro namoro não deu certo, ou que você passou a adolescência sozinho, que isso vai acontecer com todo o mundo. Casais felizes, vivendo o romance ideal deles, sem dúvidas é algo que incomoda muita gente cuja visão de mundo é o que falei mais acima, e como um ritual continuam perpetuando a ideia de que eventualmente vai dar tudo errado para eles e eles vão se separar, porque aparentemente ser feliz já está quase sendo visto como algo errado. Mas novamente, daqui para um longo post sobre os problemas da sociedade moderna é um passo, então paremos por aqui.
Mas o que exatamente é o argumento do “realismo”, no fim das contas? Se cada pessoa tem sua própria realidade, teoricamente tudo seria realista, certo? Claro que não. É aí que entra contexto, cenário e execução. Por exemplo, uma guerra onde o lado do protagonista vence sem ninguém morrer definitivamente não é realista. Por exemplo, uma pessoa desenvolver um “amor verdadeiro” por outra em um dia de convivência não é realista. Por exemplo, uma pessoa correndo em linha reta não ser atingida por múltiplas armas de fogo atirando na sua direção não é realista.
Realismo não é só sobre a realidade em que vivemos, mas também sobre o quão crível são as ações dos personagens e acontecimentos da obra, quando é sobre a realidade em que vivemos, é relativo demais para ser argumentado. Um final realista não é um final trágico, nem um final feliz, pode ser qualquer um dos dois e é preciso analisar sob esse ponto de vista, ao invés de achar que ser realista equivale a ser trágico. Acho que esse é o segundo grande ponto desse texto, o primeiro sendo lembrar que cada um vive a vida da sua própria forma, que não existe só uma realidade. Obras fantasiosas podem ser realistas, assim como obras mais “pé no chão” podem não ser nada realistas. Quando eu abri o texto falando do argumento do realismo estar perdendo sentido, era nesse ponto que eu queria chegar, começaram a usar esse argumento para falar de realidade, ao invés de falar do que é real. Talvez seja pedir demais para que as pessoas comecem a analisar contexto, cenário e execução ao invés de só falar o que ela acha que é, mas não custa tentar ao menos trazer à tona essa reflexão, que espero ter acrescentado algo para você. Saraba Da!
Isekai e a natureza do que é definição
Isekai é o 'boom' do momento, quando as pessoas já estavam achando "saturado" sair 3-4 animes isekai a cada 200 animes, o número subitamente subiu para 3-4 a cada 50. Basicamente cerca de 2% dos animes que saem anualmente eram isekais há 3~4 anos atrás, hoje esse número subiu para cerca de 7 ou 8%. Se já havia muitas pessoas que deliberadamente se incomodavam com meia dúzia de isekais por ano, imagina quase esse número chega a uma dúzia ou mais?
Claro, esse não é um processo novo. Aconteceu o mesmo com slice of life moe muitos anos atrás, todo anime novo do tipo era duramente atacado simplesmente por existir, mas eventualmente as pessoas se aquietaram e ninguém mais fala nada mesmo quando sai cinco deles na mesma temporada.
Porém, existe um grande problema, principalmente nos dias de hoje, em casos como esse, que é o motivo desse post para início de conversa. Nos últimos tempos há algo que eu venho observando com alguma frequência, e que me chamou ainda mais atenção nas duas últimas semanas ao ver um youtuber (Estrangeiro) de anime com mais de um milhão de inscritos e um artigo da ANN cometerem o mesmo erro. Isso é: Rotular como isekai algo que não é isekai.
O artigo da ANN, intitulado "Os 6 grupos de Isekai mais atraentes do Verão/2019", já começa com o pé esquerdo uma vez que para ter "os 6 mais atraentes", precisaria ter um número maior que 6 para listá-los, o que não é o caso, o que trás à tona a velha necessidade de ser caça-cliques, por isso o título. No entanto, a pseudo-polêmica aconteceu mesmo quando a redatora erroneamente listou DanMachi nessa lista, o que fez muita gente reclamar disso. A redatora em questão já admitiu o erro e se desculpou (OBS: Na abertura do post a própria redatora "explica" a premissa de Isekai, premissa essa que DanMachi não se enquadra, então foi um erro bem esquisito), mas esse caso é só mais um de algo que vem ocorrendo recentemente, mas logo logo chego lá.
Esse erro rendeu uma grande discussão nos posts desse artigo, o que pode explicar não haver alterações no artigo em si já que ter mais movimentação é bom para eles, de pessoas criticando o erro da redatora e pessoas criticando quem estava criticando o erro da redatora, tudo em cima da discussão do que é ou não é isekai, e o que é ou não aceitável chamar de isekai.
Muitos se referem a isekai como um gênero, o que para mim não é uma boa ideia, por isso quase sempre me refiro a isekai como apenas um sub-gênero, mas talvez mesmo eu não esteja muito certo em usar esse termo. O fato mesmo é que isekai é um conceito, cuja definição em obras de ficção é "protagonista é transportado para outro mundo" e só. No meu Sou Nan Da! #03 eu falo mais a fundo sobre Isekai, caso queira uma abordagem mais extensa.
A questão é que, por definição, para ser um Isekai antes de mais nada a obra precisa que o(a) protagonista seja transportado(a) para outro mundo. É isso, não tem muito segredo e é bem fácil de entender, certo? Bem, pelo visto não.
"Definição é uma explicação clara e concisa de alguma coisa, é o significado.
Definição é um substantivo feminino. Do latim “definitione” que significa uma exposição com precisão."
"Explicação do sentido de uma palavra, vocábulo, expressão, pensamento, conceito"
Às vezes o que me parece é que falta para as pessoas pararem e procurarem saber o que é ter uma definição, como mostrado acima. Mas na realidade o buraco é mais em baixo.
Como eu disse antes, o post da ANN rendeu muita discussão sobre o que é ou não é Isekai, que é algo que não deveria acontecer, ou ao menos muito raramente em casos muito ambíguos. Isso porque você raramente vê as pessoas discutirem se uma obra é ou não é de gênero X ou Y, salvo uma ou duas exceções. O que me leva a refletir sobre o porquê disso acontecer nesse caso? Mas não precisa pensar muito para chegar lá... Mal-intencionado ou não, no fim isso é claramente causado por um desgosto ao conceito em si, o que é um problema que vai muito além de subgêneros de ficção. As pessoas estão criando o hábito de manipular definições para incluir/excluir o que lhes agrada/desagrada, é uma ação totalmente tendenciosa que só serve para espalhar desinformação.
Existem pessoas que por gostar de certas obras, ao ver essas obras serem enquadradas como algo que detestam (Leia-se Isekai), se recusam a querer "misturar essa boa obra a essas coisas ruins", e também existem pessoas que acham "é parecido, logo, é a mesma coisa" quando, além de estar errado, muitas vezes nem parecido é.
E sabe a quem isso ajuda? Exato, ninguém. Quem odeia Isekai vai deixar de ver obras que não fazem parte do subgênero porque pessoas ficam estupidamente rotulando obras aleatoriamente, e pessoas que gostam de Isekai vão assistir certos animes esperando ver o que gostam e vão ter as expectativas quebradas. Gêneros e subgêneros existem para guiar as pessoas para o que gostam ou permiti-las evitar o que não gostam, não para ficar manipulando e inventando suas próprias definições.
Vale ressaltar: Isso só acontece com tipos de obras que muitos não gostam, não é algo normal, e é, muitas vezes, até desonesto. Existem casos discutíveis, as obras que se passam em realidades virtuais, por exemplo, são ou não são Isekais? Segundo o autor de Sword Art Online, sua obra não é um Isekai porque em nenhum momento os personagens saem do mundo em que estão. Ainda assim, existe a ideia do protagonista ser transportado para um outro mundo sendo instigada em obras do tipo. Esse tipo de caso é possível se ter uma discussão, e até aí é saudável. O que não pode é pegar uma obra onde é simplesmente uma obra de fantasia normal e rotulá-la como Isekai porque sim. Muitos cometem o maior erro que é querer dizer que algo faz ou não parte do subgênero baseado em clichês e afins, coisas que definitivamente não são parte do que definem o conceito. Clichês não definem nada, são apenas artifícios utilizados na narrativa de algumas obras, algo opcional para o autor. Por fim, não é porque muita gente compara Code Geass com Death Note que Death Note agora é um anime de mecha. Sei que é pedir demais para uma geração com tanto extremista na internet, mas meia dúzia de similaridades não torna uma obra igual a outra.
O pedido que fica é que vocês se atenham as definições reais de cada gênero ou subgênero. Tem gente que até hoje acha que Isekai são só obras de fantasia. Muita gente simplesmente não tem conhecimento sobre essas coisas, e podem ser vulneráveis a pessoas espalhando sua visão distorcida e tendenciosa sobre as coisas para desinformar os outros. Essas pessoas já conseguiram fazer isso com outro gênero, e com incontáveis obras, então não é algo impossível de acontecer. Tentar comprar briga contra desinformação pode ser um esforço inútil, mas não dá para dizer que não tentei. Saraba Da!
Fortissimo EXS//Akkord:Nachsten Phase - Conflito e Convivência
Dia 26 de maio de 2015, segundo o Visual Novel Database, foi a data em que eu finalizei (i.e. quando dei nota) minha Visual Novel favorita, Fortissimo EXS//Akkord:Nachsten Phase. Exatos quatro anos depois, esse texto está sendo publicado como uma comemoração a essa data.
Para quem desconhece, e não é necessário conhecer para apreciar esse texto, Fortissimo é uma Visual Novel de 2010~2012 que conta a história de um núcleo de personagens que acabam envolvidos em um Battle Royale e precisam lutar para sobreviverem, ou seja, o básico do sub-gênero. Uma definição bem pobre do que a VN representa, realmente, mas mais fácil mudar essa impressão ao longo do texto do que colocar uma sinopse aqui.
Esse ano eu decidi que escreveria finalmente uma review para minha Visual Novel favorita---outrora eu já havia escrito uma em 2015, mas desta pouco se dava para tirar, então resolvi esquecê-la---para isso, cheguei a rejogá-la por completo e refleti ainda mais sobre a mesma. Eis que surge-me a ideia de realizar um questionário, usando a temática da obra como base, a fim de estudar e explanar aprofundadamente o psicológico dos personagens. Tal questionário não teve um grande número de respostas, claro, mas digo que foi um resultado muito acima do que eu jamais esperaria. Tão bom foi o resultado que acabei mudando meus planos de última hora, e decidi que este texto não seria uma review sobre a obra (Esta que ainda será feita, sim, mas provavelmente postado na Völuspá VNs), mas sim uma análise. Uma análise do funcionamento do psicológico dos personagens e como toda essa temática é abordada dentro da obra.
Conflito e vida cotidiana---Essas duas coisas revezam entre si dentro da narrativa de Fortissimo, e pode-se dizer que tirando os grandes exageros do sobrenatural da obra, ela reflete quase perfeitamente como se dá a vida das pessoas, entre o dia-a-dia e os conflitos, internos ou não. O ser humano inevitavelmente cria muitas faces para as diferentes situações da vida, em especial situações mais extremas em relação a situações mundanas em que já estejam acostumados. Todos nós somos compostos de "clichês" e características únicas, como tal, sermos superficiais ou profundos muito também depende da situação que vivenciamos e como estamos nos sentindo no momento. Quem nos vê de fora pode nos definir de diversas maneiras de acordo com o que mostramos a elas, sendo nossa aparência e personalidade as coisas superficiais, nossa história, ideais e visão de mundo as coisas profundas, para citar exemplos.
Fortissimo é uma obra que te convida a conhecer tanto o lado superficial quanto o lado profundo de cada um dos seus personagens (Salvo um ou outro, que deixam a desejar), olhar as coisas pelos olhos deles, para assim você ter uma visão mais ampla do que ele é, e do que ele representa.
Acima de tudo, Fortissimo te convida a discutir o certo e o errado, o bom e o mau, o justificável e o injustificável. As armadilhas da mente humana são postas em prova, sejam em situações extremas ou não, o quanto o seu psicológico aguentaria se estivesse nos sapatos de cada um dos personagens. O incrível poder da contradição, a subversão de expectativas e como ver as coisas de outro ângulo muda completamente como você pensaria e agiria. Não existe uma perspectiva só, a visão certa das coisas, o que possibilita que o leitor tire suas próprias conclusões.
Ao longo da história, o psicológico dos personagens está sempre como um elemento inserido na narrativa. Como tal, tanto a ação quanto o slice of life está sempre aprofundando mais e mais na mente de cada um, ainda mais graças as constantes mudanças de perspectivas que a VN dá. As lutas acabam quase sempre como um conflito de ideais, ou começam por esse motivo. Os ideais de cada personagem são peças chaves para o desenvolvimento da história, mas mais importante, são a base em que cada personagem se mantém de pé. Acima de tudo, Fortissimo mostra que a pessoa em quem você deve mais depender é de você mesmo, pois o valor da sua existência é o que vai te manter firme quando não houver mais onde se segurar.
Em Fortissimo, há uma variedade de personalidades, do mais altruísta ao mais egoísta. Mas ao mesmo tempo, o mais altruísta ainda é egoísta, tal como o mais egoísta ainda é altruísta. As múltiplas faces, de vezes até contraditórias, também revelam as múltiplas camadas de cada personagem, que são trabalhadas de diversas formas dentro da narrativa, podendo começar de um traço de personalidade mais presente e terminar na representação simbólica e metafórica das armas dos personagens---Essas em especial, uma vez que na história a destruição da arma significa também o fim da existência da pessoa, então pode-se dizer que as armas podem ser a última camada da existência do personagem.
Como tudo de certa forma remete ao psicológico, ideais e história dos personagens, a narrativa em si não poderia ser diferente. Então, como eu disse, mesmo o slice of life faz parte disso.
No início da obra, ela é bastante normal, em todos os sentidos da palavra. Até mesmo alguns clichês chegam a me incomodar, por não achá-los necessários. Realmente começa como uma obra escolar comum, como era de se esperar. Quando o Battle Royale começa, como se houvesse o virar de uma chave, começamos a ver as coisas de maneira relativamente diferente. Os personagens mudam um pouco o comportamento, ainda assim, escolhem proteger suas vidas cotidianas enquanto buscam encontrar uma forma de saírem daquela situação.
Conforme o avançar da história, o slice of life da obra vai sofrendo uma sútil metamorfose, onde sentimos diretamente o impacto que o Battle Royale causa nos personagens ao que eles vão chegando a conclusão de que aquilo é inevitável. Existe um amadurecimento invisível onde a realização de que aqueles momentos podem ser os últimos os fazem ficarem tanto mais contemplativos quanto tensos, onde tudo que eles podem fazer é aproveitar o agora e olhar para o antigamente com um ar de nostalgia. Mas no fim isso é menos uma mudança no cotidiano, e mais uma mudança na maneira com que ele é observado.
A narrativa seguir esse caminho é possível porque, apesar de existir alguém para, em partes, servir esse papel, não existem vilões na história. Em histórias de Battle Royale, normalmente os vilões servem o papel de unificar os heróis, combater o mal em comum. Quando se remove isso, terminamos apenas com vítimas, basicamente. Vítimas culpas. Pessoas que tem que carregar o peso das suas próprias ações, onde o que é certo ou errado pode acabar ficando confuso na sua própria cabeça. Os personagens erram, ações sobre pressão, em situações de desespero ou simplesmente tentando proteger a todo custo a sua base. Eles não seguem um roteiro, falando de maneira figurada, pois como seres humanos estão sucintos a influências externas e internas que podem os induzir ao caminho mais imprevisível. Isso pode ser frustrante para muitos, pois naturalmente esperamos que sigam o caminho que achamos mais interessante, não o que seria mais natural.
E eu nem digo que isso é necessariamente errado. A obra quer que você questione algumas ações, e admire outras. Da mesma forma que os ideais dos personagens entram em conflito, a obra também quer que os seus ideais entrem em conflito com os ideais dos personagens. A sensação mais incrível não é a de encontrar um excelente personagem com o qual você se identifica, mas sim um excelente personagem que você discorde completamente, mas entenda o porquê dele pensar e agir daquela forma. Ou mais, mostrar rejeição a uma forma de pensar/agir, mas chegar a conclusão que você não tem o direito de julgar o personagem, pois o quão realista e justificável é essa maneira de pensar/agir. É somente quando você entende o quão enraizado muitos dos personagens estão na nossa realidade, tanto na psicologia, quanto até mesmo na filosofia. O maior realismo é aquele que consegue reproduzir as mais diversas realidades, tanto as dos favorecidos, quanto as dos prejudicados, tudo de maneira crível e imparcial. A mente humana é um mistério, uma casa de mil quartos diferentes que levam a outras casas de mil quartos diferentes. E com isso, entra o questionário em cena.
A fim de estudar mais a fundo o comportamento das pessoas, eu criei o questionário com 30 perguntas inspiradas na obra. Infelizmente por não ser ninguém muito popular, o número de respostas que obtive não foi alto, mas por outro lado, foi um resultado tão positivo que me motivou a tornar esse texto puramente sobre o tópico em questão. De fato, enquanto lia as respostas, eu fiquei fascinado em quão próximo da realidade Fortissimo chegou na execução dos seus personagens em relação ao psicológico e aos ideais. Posso dizer com tranquilidade que eu poderia pegar aleatoriamente 12 das pessoas que responderam ao questionário e jogá-las no lugar dos personagens de Fortissimo, que a história ainda seguiria uma narrativa similar, isso é, "Como esse grupo de pessoas normais reagiria a esse Battle Royale?". Quiça ao ponto de até ter alguma figura antagonística, dependendo da sua moral.
Felizmente a maioria das respostas foram bem sérias e trabalhadas, o que me deu uma boa perspectiva da visão das pessoas. Interessante que, o questionário sendo anônimo, permitiria que certas situações do próprio questionário fossem reais, por exemplo, há pessoas da qual eu discordo dos pontos de vistas, e uma dessas poderia muito bem ser um amigo meu, o que colocaria nossa relação em uma situação de tensão. Por outro lado, foi interessante ver que personagens que eu vejo as pessoas gostando menos que os outros são justamente uns do que elas mais concordam.
Contradição, algo realmente interessante de se analisar de perto. O quão fácil é você se contradizer em um espaço de 30 perguntas? Muito curiosamente eu notei que muitos se contradisseram ao responder o questionário, e eu tenho quase certeza que quase ninguém percebeu isso. Exemplo mais óbvio sendo as pessoas que afirmaram que prefeririam não se relacionar com ninguém envolvido no mesmo Battle Royale, mas responder que conseguiriam se relacionar romanticamente ou que conseguiriam confiar em alguém do Battle Royale e vice-versa. Isso provavelmente foi um conflito entre emoção e razão, o que não só é esperado, como é bem abordado na própria Visual Novel.
O escopo das respostas foi bem variado, embora algumas tenham sido mais unilaterais (Algumas ficando 70% a 30% entre uma resposta e outra), não houve nenhuma que todos tivessem um consenso. Mesmo quando era para escolher entre as pessoas que você mais ama e todo o resto do mundo.
A pergunta número 15, que deixava você realizar um desejo, variava de pedir a paz e unificação do mundo até pedir por poder ou total conhecimento.
Pensar que os ideais da personagem mais popular da obra é a que tem o maior percentual de discordância, enquanto os "menos" populares são os que tem os ideais com maior percentual de concordância, é deveras curioso. E acredite, não acho que essa popularidade ficaria diferente mesmo dentre as pessoas que responderam esse questionário ou no caso de se tornar uma (boa) adaptação em anime. É difícil identificar a razão por trás disso, e talvez varie de pessoa para pessoa, mas é um dado interessante de se saber.
Quando decidi montar o questionário, já sabia que ele seria falho---Sim, falho pois é impossível saber como realmente reagiríamos a certas situações a não ser que já tenhamos passado por elas, e mesmo assim talvez ainda não reagiríamos da maneira que esperaríamos na segunda ou terceira vez. Levei as respostas de forma que fosse uma reflexão de como a pessoa gostaria ou acha que reagiria, mas a mente é imprevisível, e o corpo só obedece a ela, e está tudo bem assim. A utilidade do questionário, acima de tudo, era mostrar que cada ser humano é o seu próprio universo, e isso me foi provado com maestria. Os personagens de Fortissimo em sua maioria respeitam a eles mesmos como seres humanos antes de respeitarem os leitores como peças de entretenimento, o que não quer dizer que não são personagens legais de se acompanhar de um ponto de vista de puro entretenimento, a ação e o slice of life estão aí para cumprir esse papel. Mas é importante ressaltar que seus movimentos são legítimos, quer esses movimentos te agradem ou não, quer sejam eles previsíveis ou não.
Além disso, tanto o questionário quanto a própria Visual Novel são um lembrete de que não existe só você no mundo. Vivemos em sociedade, e isso só é possível se reconhecermos as diferentes visões de mundo e os possíveis caminhos que levaram as pessoas a terem esses pontos de vista, a única forma de você consolidar sua visão como única é se isolar completamente do mundo e permanecer dentro da sua própria bolha. Caso queira viver, prepare-se, sua visão de mundo e ideais serão confrontados cedo ou tarde, suas atitudes e personalidade não vão agradar a todos, e talvez seja preciso machucar os outros simplesmente por necessidade de sobreviver. As pessoas que responderam o meu questionário não só discordam umas das outras em diferentes pontos, elas podem muito bem discordar do próprio criador do questionário, no caso eu, por alguma questão ali escrita. Ao reconhecer cada diferente realidade existente em cada pessoa e saber conviver com isso, conseguiremos aprender e evoluir, ir mais longe do que antes e ainda mais longe do que depois. Mas lembrem-se, tanto o conflito quanto a convivência são igualmente essenciais. Se fechar em uma bolha é tão errado quanto aceitar o inaceitável para evitar conflitos.
Fortissimo, como o nome já sugere, muito usa a música como um fator metafórico. Cada personagem toca sua própria melodia, alguns pianíssimo, outros fortíssimo, mas definitivamente diferentes sons que podem ser agradáveis de se ouvir ou não, podem ser empolgantes de se ouvir ou não, podem ser emocionantes de se ouvir ou não, cada um deles no seu próprio canto do palco nesse grande concerto enquanto você, a plateia, os acompanha.
É catártico e inspirador ver e ouvir os personagens darem voz aos seus próprios espaços da maneira mais humana possível, na situação mais surreal possível, dando peso para sua própria existência sem diminuir ninguém, em pé de igualdade, por mais adversa que a situação pareça. O ser humano tem um potencial ilimitado, e talvez seja exatamente isso que faltam as pessoas reconhecer para dar um passo adiante. Se libertar das amarras que impedem nosso crescimento, e finalmente olhar para o futuro. Enquanto só soubermos conviver ou só soubermos conflitar, ficaremos em um eterno impasse.
É difícil explicar o quão importante esses personagens foram para mim como pessoa, mas mensagens como dar mais valor a sua família e amigos, dar mais valor a si mesmo, reconhecer que você está tanto certo quanto errado, ter empatia pelos outros, ser mais pacífico e evitar conflitos desnecessários, foram certamente passadas adiante. E a grande beleza disso é que não é a mensagem da obra, Fortissimo, mas sim ensinamentos que você aprende vivenciando a obra junto com cada um desses personagens. Cada uma dessas coisas representa os ideais de cada um deles, e você só sente realmente isso ao se colocar no lugar deles e ver o mundo pelos olhos deles. Eu não preciso concordar com uma visão de mundo para aprender com ela, mas parece que nos dias de hoje não concordar com a visão de mundo de alguém já torna aquela pessoa descartável para você, o que é realmente triste.
Ao chegar até aqui, eu realmente sinto que eu não falei realmente dos personagens em si, mas sim do que eles representam. E acho que não tem problema terminar assim.
Nesses 4 anos a única coisa que mudou foi que meu apreço por Fortissimo apenas cresceu mais e mais, principalmente agora após rejogar a obra. Longe de ser perfeita, isso não existe, mas certamente é uma peça musical que eu vou querer ouvir até o fim da vida. Estarei gritando ao mundo minha verdade pessoal, e te convido a gritar a sua também, sempre. Concorde, discorde, mas fale, não invalidarei o seu espaço, e você não invalidará o meu. Enquanto continuarmos assim, certamente chegaremos em algum lugar.
Queria deixar meus agradecimentos a todos que tiraram um tempo para responder ao questionário, de verdade. Toda a reflexão que levou a este texto só foi possível graças a vocês. E é claro, para todos que estiverem lendo isso agora, meus sinceros agradecimentos também. Saraba Da!
A importância de como uma ideia é executada
Pratos de comida na maioria das vezes são receitas prontas que exigem determinados ingredientes para que ele venha a existir. Cada prato exige diferentes medidas de cada ingrediente e eles podem variar muito dependendo de quem o está fazendo. Às vezes você deixa a criatividade fluir e faz algo de diferente com uma receita pronta, ou tenta criar algo você mesmo, mas nem sempre o resultado acaba sendo positivo. Da mesma forma, seguir a receita muitas vezes pode dar errado, assim como muitas vezes pode dar certo. Mesmo que seja exatamente o mesmo prato, quando feito por duas pessoas diferentes eles podem terminar bem diferentes um do outro. Cozinhar pode ser bem complicado, às vezes mesmo quando você acredita estar fazendo tudo certo, o prato termina ficando muito pior do que você poderia imaginar. Mas também há vezes que se arriscar em fazer algo que uma pessoa normalmente não faria pode acabar rendendo um ótimo prato. Há muito o que se pensar e fazer na hora de cozinhar, mas existe também outra grande preocupação: Cada pessoa tem um paladar diferente. Um prato simples tem mais chances de agradar o paladar de mais gente, um prato mal feito certamente receberia críticas negativas, mas talvez tenha algumas pessoas que gostem dele mesmo assim. Às vezes você erra a mão e coloca um ingrediente demais, estragando o sabor do prato. Às vezes você faz algo refinado demais, mas que falha em deixar um impacto em quem está comendo. Há infinitas variáveis possíveis do momento em que você começa a cozinha até o momento em que as pessoas provam o seu prato, mas no fim das contas tudo depende de como você cozinha, suas capacidades, sua criatividade, sua atenção na hora de preparar a comida. Não importa (Exceto em pouquíssimos casos) se você está fazendo um ovo mexido ou um Steak Tartare, mas sim como você está fazendo tais pratos.
Tudo isso nos leva ao tema de hoje---A execução de ideias.
Algo que vem me incomodando bastante na mentalidade dos fãs de anime/mangá da atualidade, é uma certa obsessão por "Para a obra ser boa tem que usar ideias únicas". Foi criando-se a ideia de que clichê é algo ruim, e que "originalidade" é a salvação da industria ou coisa parecida, e isso é realmente algo que me faz colocar a palma no rosto e balançar a cabeça. Existem N motivos para isso ser uma visão bem distorcida do que realmente ocorre, e N motivos do porque isso ser problemático, então primeiro irei listá-los:
1) Praticamente não existe, nesse século principalmente, coisas realmente originais. Tudo que é produzido são reutilizações de ideias já usadas antes. O que muda aqui realmente é você saber disso ou não, afinal, para alguém que nunca assistiu animes ou leu mangás/hqs, Boku no Hero Academia pode soar como algo super original.
2) Reutilização de ideias não é algo inerentemente ruim. Existem 1001 blogs/canais de animes com os mesmos tipos de posts/vídeos, e sem duvidas vocês já visitaram muitos deles. Alguns você gosta, outros não, o que é perfeitamente normal, pois no fim são todos diferentes uns dos outros.
3) Seguindo o ponto anterior, ideias não possuem forma. A forma é dada pela pessoa que põe a ideia em prática, e cada pessoa dá a sua própria forma para essa ideia. Quando a forma é realmente a mesma, aí é algo que conhecemos como plágio, e já vimos em casos no youtube, por exemplo, ou na própria industria, que plágio normalmente não dá muito certo. As pessoas se revoltam, é normal e só o esperado.
4) Você provavelmente gosta de uma obra que usa de ideias similares a outra obra que você não gosta.
5) Você provavelmente gosta de uma obra cuja ideia principal é uma que você não gosta.
E a lista segue adiante, mas levantei alguns dos principais problemas dessa mentalidade pois é importante para o que vem a seguir.
Existe um fator crucial para que tudo o que eu disse até então, inclusive a alusão aos pratos de comida, funcione de fato. É o que as pessoas chamam de "execução".
Esse é um fator que muitas vezes é simplesmente ignorado, ele não é lá algo grande e chamativo, muitas pessoas sequer sabem da existência disso, porém ainda é uma pequena engrenagem que faz toda a estrutura funcionar. Não seria exagero dizer que a execução é o fator mais importante em uma obra, independente de qualquer outro fator. E é exatamente por isso que todos os pontos levantados anteriormente são problemáticos: As pessoas estão mirando no alvo errado, da pior maneira possível, com o pior dos propósitos. É realmente como preparar um prato, mesmo os ingredientes sendo um fator importante, eles são irrelevantes se a preparação do prato for ruim. Então ao invés de condenar um determinado ingrediente, o ideal seria buscar pratos com esse ingrediente que te proporcionem um sabor diferenciado, mesmo ainda sendo aquele mesmo ingrediente.
A execução é tão importante que uma obra que você não gostou pode sim se transformar em uma obra que você teria gostado caso tivesse sido executada de maneira diferente. Você pode e deve prestar atenção no "O que é feito", mas é crucial que o "Como é feito" sempre seja tratado com o máximo de prioridade.
A maioria das suas obras favoritas provavelmente são ideias reutilizadas executadas de maneira memorável. Quando você inventa de simplesmente fingir que a execução não é importante para frisar que "o que importa é a originalidade", você basicamente mata quase todo o entretenimento moderno e boa parte do entretenimento antigo, incluindo provavelmente muitas das suas obras favoritas, que você convenientemente tentaria inventar uma desculpa para invalidar isso.
O que realmente importa é que a princípio o clichê não importa, a ideia batida também não, se a execução for realmente boa, a obra vai ser funcional. No caso da execução ser meramente passável, nesse caso sim os demais elementos vão ser muito mais relevantes para o seu aproveitamento. Agora, se a execução for ruim, não importa o quão boa seja a ideia, a obra vai ser apenas um grande desperdício.
É claro, eu gostaria de frisar que tudo isso é de um ponto de vista muito imparcial. No fim somos todos humanos, temos nossas preferências, nossas visões de mundo, nossos desgostos. Então não existe padrão fixo para nada, o fator pessoal sempre vai pesar bastante para qualquer pessoa nesse mundo. Há muitas outras coisas a se levar em consideração, por isso disse que caso a execução de uma obra fosse realmente boa, ela seria "funcional". Qualquer obra precisa de uma execução minimamente decente para funcionar, mas a partir daí existem outras barreiras a serem superadas para se tornar uma obra marcante. E como meu primeiro parágrafo da a entender, cada pessoa é uma pessoa diferente e vai ter um "paladar" diferente para cada anime. A ideia do post de hoje é simplesmente atentar que precisamos tirar todo esse peso no que está sendo feito e começar a considerar muito mais em como está sendo feito. Eu realmente acredito que dar esse passo para ver as coisas dessa forma vai te tirar de uma bolha bem delicada de se sair, onde as pessoas acabam se vendo presas a certos tipos de obras porque só quer circundar as ideias que lhe agradam pelo resto da vida. Não é porque todos nós somos inevitavelmente tendenciosos aqui e ali por sermos o que somos que devemos ser completamente tendenciosos com algo tão intangível quanto uma ideia. Pensem nisso. Saraba Da!





















